O PROSTITUTO PORTUGUÊS
IMPARÁVEL (PARTE UM)
A surfista aponta com um dos dois finos que traz na mão, em copos de plástico, na minha direcção. Logo recua o gesto para si mesma, cantarola um Nã nã nã, e estica a boca para me sorrir. Aquela maneira que as gajas adultas faziam quando eu ainda era menor.
Fico confuso. Num instante apenas, achei que era menor outra vez. Mas já não sou. Olhando bem, ela é mais velha do que eu julguei que fosse. Deve ser por isso que me olha assim. Sigo-a com o olhar, está a levar a cerveja ao Mauro. Ele nem olha. Continua a tocar guitarra com a Adelaide, a dona do bar de praia, e com o Espinhas, filho dela. A Margot fuma para cima da cena, o que ajuda ao tom. A luz de um projector pendurado numa haste de madeira trespassa o fumo. Vejo como se serpentea pelos convivas, que cobrem com ânimo o marulhar nocturno de um oceano descansado.
É dessa bela cena que contemplo do meu canto, mais afastado, que dispara como uma flecha em arco, a provocação do Mauro. Cheiras a leitinho ó P.P.. Rio-me. E sem querer, troco um olhar com a Margot — o que me faz sentir que afinal não me estava a rir. Não como me rio quando estamos só os dois, no sofá desengançado de casa dela.
Mantive-me afastado. O Espinhas tem agora a guitarra, e a Adelaide empoleira-se para dar voz à ocasião. Os ânimos levantam-se. E o Mauro também. Vem para o pé de mim.
Então, P.P. estás aí, sozinho, não te misturas com a gente. Como é que é?
Estou fixe.
Não gostas disto aqui?
Gosto.
Isto é que é vida. Surf, bares de pescadores, tás a ver. Vida simples, meu. Tens de saber apreciar estas coisas. E mexilhão, claro. Olha ali. Aponta para as pernas roliças e morenas da surfista mais velha, sufocadas dentro de uns calções de ganga. Afastas as pedras e encontras o mexilhão. Diz lá se há melhor sítio para viver. Não há.
Olho para o mar. Desse lado, escuro, imenso, parece-me haver algo para viver.
P.P. vou andando. É a voz da Margot. Olho. Está de pé.
Vais assim, Margot? Não queres vir lá a minha casa um bocado? Anda lá. Vocês ainda não foram lá.
Não, não vai ser hoje. Vou-me levantar cedo e ainda tenho muito que conduzir até casa.
Vou para me levantar. Ele trava-me.
Eh onde é que tu também vais?
Não quero que a Margot vá sozinha, respondo.
O Mauro, insistente, Margot, queres que te vamos levar para não ires sozinha? Podemos.
Ela parece estar sem paciência. Começa a descer as escadas de madeira.
P.P., tu podes ficar. Eu vou-me pôr a caminho.
Nós levamos-te, continua o Mauro.
Não preciso que ninguém me leve, diz a Margot, já a desaparecer.
O Mauro vira-se para mim. Vês? Ela vai bem sozinha. E agora se não queres estar com esta malta, vais conhecer a minha casa.
Já me meti em demasiadas coisas para me perguntar em que é que me estou a meter. Em vez disso só não entendo como é que me deixo levar pelas marés — como um pedaço de plástico a boiar por ondas, tempestades, baías, leitos.
Entro no Ferrari do Mauro e é como se voltasse ao Jipe preto em que entrei quando era miúdo. Não porque o Mauro fosse abusar de mim. Aliás, toda a gente tem o fetiche de foder com o Mauro, mas ninguém consegue abusar — nem ser abusado — por ele. O gajo parece que assexuou o corpo fantástico e desejável que Deus lhe deu. O que me faz voltar a essa ideia tantas vezes é uma certa passividade em permitir que as coisas me aconteçam. Não sei se porque, de alguma maneira, espero repetir algum acontecimento, ou se porque, pelo contrário, nunca nada aconteceu. E quando estava para acontecer — acontecer em mim — eu quis continuar a viagem.
Ao ver o Mauro a conduzir velozmente pela serra, sem receio do perigo em que nos põe, pergunto-lhe, Seguirias viagem?
IMPARÁVEL (PARTE DOIS)
É enorme a casa. Os cães saltam pelo Mauro acima e cheiram-me até aos ossos, mas ele agarra neles, põe-nos fora no pátio, e fecha a porta da sala. Já não chateiam, diz.
Põe-te à vontade. Queres beber o quê? Tu vê lá não te ponhas a fazer grandes misturas com drogas, eu sei do que falo.
Não mandei/
Não mandaste, não mandaste ainda. Não queres seguir viagem? Então, seguir viagem é seguir viagem. Não há muitos como nós, sabes. Por isso é que eu te trouxe cá. Não penses que vem qualquer pessoa a minha casa. Também já não estávamos a fazer lá nada no bar. Não é que eu não goste daquilo, eu gosto, tem boa onda. Mas isto, quando estamos nós, quando se acerta assim, um gajo tem de seguir, seguir viagem é seguir viagem, não é? Tu percebeste. No carro. Tu percebeste no carro. Por isso é que te viraste para mim e perguntaste. Mas não perguntaste, pois não? Não era bem uma pergunta. Era outra cena. Era retórica. Sabes o que é uma pergunta retórica. Sabes, claro que sabes.
Ouço os cães lá fora. Aproveito para perguntar, E os cães? Levas os cães contigo?
Não. Tenho quem tome conta deles. Olha, vou mudar de roupa. E se vamos partir, não vamos levar muita coisa, senão fica logo tudo muito planeado, perde-se a coisa espontânea, que é a melhor, é onde está o busílis da filosofia, do bicho, do que quer que isto seja – esta coisa que andamos para aqui a fazer. A cena é que ninguém sabe.
Ele entra por uma porta. Fico para ali na sala. Passeio a mirada pelos pertences por cima da lareira. Penso se não deveria ter ido com a Margot. Já deve ter estar em casa. Pego no telemóvel para saber se chegou bem.
Então, o que é que estás a fazer, ouço o Mauro perguntar ao voltar pela mesma porta por onde entrou. Está de cuecas. Exibe os braços. O peito, os abdominais. Músculos das pernas, gémeos. O sexo enroscado no tecido branco elástico. Estás com o telemóvel na mão para quê? Estás a fazer alguma coisa com isso?
Fico atrapalhado. Não, estou só…
Aponta aí para mim, então, diz-me. Se estás com ele na mão, tens de o usar. Isto é como quando és apanhado a bater uma. Mais vale seres digno e vires-te na cara de quem te apanhou. Anda, aponta aí. Então? Tás a cheirar a leitinho.
Eu aponto.
Agora filma.
Eu vou a medo com o dedo nervoso ao ecrã do telemóvel procurar o rec da câmara. Ligo. Começo a filmar.
Tás a filmar?
Tou.
Não me apontes para a cara. Assim, não. Aponta para o corpo. Vê isto como um objecto. É só um corpo. Não é mais do que isso. Não consegues ver nisto só um corpo? Não é o Mauro, não é ninguém. É só carne, carne quente. Olha. Dá cá, chega cá a tua mão. Vê.
Ele pega na minha mão e põe-na na barriga dele. É dura, muito lisa e respira. Desce um pouco. Está rente às cuecas. Vês? É ou não é só um corpo?
É, digo-lhe vencido.
Estás a apontar-me para a cara.
Não está a filmar.
Não quero saber. Desliga isso.
Está desligado.
Não interessa. Não apontes essa merda.
Estás-te a passar?
Ele ri-se. Aponta com o dedo para a minha cara. Só se passa quem estiver deste lado. Tu estás do lado de quem?
Hã?
Estás do lado de quem? Do meu ou do da tua amiga?
Eu agora estou aqui.
Pois estás. E eu olha, sabes que mais? Me cago en Dios. Sabias que essa foi a minha tese? Me cago en Dios. Tive uma ovação de pé.
De mestrado?
Não. Aí é que está. De PAP. Que é muito mais importante, vocês é que não percebem.
Começou-me a parecer que não iriamos sair daquela casa. Vais-te vestir, perguntei.
Vou ainda tomar banho. Curtes ler poesia? Podias ler para mim enquanto eu tomo banho.
Eh pa, Mauro. Mas tu estás numa de ir e seguir viagem ou nem por isso?
P.P., já te disse que sim, não disse?
Disseste, mas agora estás a falar em ler-te poesia, não me parece que te estejas a despachar para irmos.
A despachar? Mas tu estás agora a gozar comigo? A despachar, foi isso que tu disseste?
Isto começava a assustar-me. Olhei para a porta da sala e lembrei-me dos cães que, embora grandes, eram amistosos.
Mas que caralho de viagem é que é essa? Não estamos no mesmo comprimento de onda, como eu pensei, então. Porque o gajo que falou comigo no carro, falou-me em seguir viagem, essa viagem que se segue, essa viagem interior, e que extravassa pela noite fora, pelo dia fora, que vai por aí, que não para nunca, que sabe-se lá para onde vai. É essa viagem ou não é?
É. É essa.
Então, explica-me lá, só para ver se eu estou a perceber, se nós não sabemos onde é que a viagem vai parar, estás com tanta pressa para chegar aonde?
Senti-me francamente estúpido, mas irritado também.
A lado nenhum. Caga nisso.
ME CAGO EN DIOS, grunhe com os braços de Adónis para o tecto alto da enorme sala. Depois baixou-os e no mesme lance desceu as cuecas até aos pés, fazendo balouçar um belíssimo pénis, entoucado por uma pele morena, preso a uma sóbria camada de pêlos firmes no púbis e empurrado pelo movimento pendular dos testículos – que davam talvez a ilusória impressão de estar a ter uma ligeira erecção.
Agora é devias ter estado com a câmara ligada, diz-me. E sai na direcção do duche, mostrando sem medo o mais ternurento e delicioso rabo de que se podia ter tido o deslumbre de ver e perder de vista.
Olhei para as estantes, à procura de um livro de poesia. Onde é que eles estariam? Encontrei um. Fui atrás do som da água a cair da pele dele sobre a louça da base de duche. A porta estava aberta. Não foi preciso bater.
Encontrei um livro.
Lê. Lê um poema. Mas lê alto para eu ouvir.
Sentei-me no tampo da sanita. Abri o livro. Olhei para ele a ensaboar-se, a espuma a cavalgar-lhe pela pele luminosa. Voltei ao livro. Disse alto para que me ouvisse, Ânsia de amar Oh ânsia de viver uma hora só que seja, mas vivida e satisfeita… e pode-se morrer, porque se morre abençoando a vida! Ele lava o pénis com a mão, apertando-o. Sabe que os meus olhos espreitam.
Mas essa hora suprema em que se vive quanto possa sonhar-se de ventura, oh vida mentirosa, oh vida impura, esperei-a, esperei-a, e nunca a tive! E quantos como eu a desejaram, e quantos como eu nunca a tiveram, uma hora de amor como a sonharam! Ele agacha-se, de cócoras. Passa as mãos pelas coxas, abraça as pernas. Eu continuo, Em quantos olhos tristes tenho eu lido
o desespero dos que não viveram esse sonho de amor incompreendido.
A água cai-lhe na nuca. Mauro? Estás bem?
Ele chora. Fecho a torneira do duche. Deito a toalha sobre as costas dele. Envolvo-o.
Sabes o que é que me custa, P.P.? É que os que dizem que sabem quem eu sou, os que acham que me conhecem, vivem a vida mentirosa. A vida mentirosa, repara no que diz o poeta. A vida mentirosa, e vivem a vida mentirosa a dizerem aos outros como é que devem viver a sua vida. Eu não confio em ninguém P.P., eu sei como é que me olham. Eu vejo o fingimento.
Ninguém te olha de maneira nenhuma.
Não mintas, também tu. Tu não és assim. Não comeces a ser agora. Eu sei, P.P.. As pessoas ferem com o olhar. E não é sem querer. Só não ferem mais porque não podem. Achas que eu não sei? Essa tua amiga Margot é uma delas?
A Margot?
Sim, essa. Achas que eu não sinto. Deve estar zangada por achar que eu não a acho mulher o suficiente.
É o que tu achas?
Levanta-se. O pénis, agora lavado, fica à altura da minha cabeça. Disfarço. Tento olhar para cima, para ele.
Dessa tua amiga Margot até acho. Se fosse mulher o suficiente não precisava de me olhar assim.
E diz uma mulher que seja que aches que não te olhe assim.
Tu.
Eu não sou mulher.
Isso eu não sei. Estou aqui com o meu pirilau à mostra e não vi o teu. Deixa lá ver.
Diz isto e lança-se a desapertar-me as calças.
Está quieto, pá. Afasto-o.
Ele continua. Agora mostras. Quero ver se não me estás aí a enganar e se não és uma gaja disfarçada. Se fores, vou-te arrancar esse mexilhão à dentada. Vais ver.
Isso eu gostava de ver.
Ai gostavas?
O Mauro lança-se a mim como o pulo de um animal em ataque e prende-me de costas contra o chão. Eu esperneio.
Estás forte? Para quem cheira a leitinho? Ele senta-se nas minhas costas, nu, com os joelhos um para cada lado da minha cabeça. Tento virar-me enquanto ele me baixa as calças com as cuecas junto.
Pá, está quieto.
Vamos lá ver o que é que temos aqui.
Consigo voltar-me de frente e aquele pénis perfeito está agora praticamente a bater-me na cara. Tento empurra-lo mas ele é forte. Sinto a mão dele agarrar-me no meu pénis e apertá-lo.
Temos vergalho. Deixa lá ver se não é falso. E aqui, são tomates a sério? Parece que sim. Estás livre, passas-te no exame do Mauro ginecologista. Dito isto, solta-me.
Tu és muita passado, pá.
E tu és muito homem. Isso é que é pena. Até nos encaixamos bem. E curto ouvir-te a ler poesia. Quase me dás tusa.
Pois mais vale contentares-te porque não tou é a ver nenhuma mulher que te vá aguentar, Mauro.
Já te disse que nem todas as mulheres são como a tua amiga, Margot. E que nem a acho assim tão mulher. Ela é que se deve achar mais mulher que as outras. Mas olha que há uma mulher, e essa sim é mulher, mulher mesmo, dessas com mexilhão no meio das pedras, que é cá da nossa irmandade. E tu conheces.
Aperto o cinto. Quem, pergunto.
Uma meio francesa.
Aguardo que ele me diga.
Tu sabes quem é.
A Sophie, arrisco.
Eu disse-te que tu sabias.
Essa sim, foi das tais que pôde vir cá a casa.
Tive um laivo de ciúme. A Sophie ali, com ele.
Ela, tu, eu, somos a irmandade da viagem.
A viagem que não começou, pergunto-lhe, irritado com tudo.
Mas nada o parece afectar. Diz-me, satisfeito, A viagem que começou. E que nunca vai parar.
IMPARÁVEL (PARTE TRÊS)
Então, cheguei lá a casa e não tinha bateria no telefone e fiquei um bocadinho estressada, porque estava no meio do nada e o Mauro estava ao telefone com uma pessoa dali das redondezas, muito fã, um rapaz muito fã dele que estava muito contente por estar a falar com ele ao telefone. E nisso estiveram uns bons 40 minutos, uma hora.
E, no entretanto, eu fazia-lhe sinais se ele podia dar-me o contacto de algum amigo meu. Porque eu, entretanto, tinha conseguido recuperar o… Eu tinha, olha, eu esqueci-me do PIN, eu fiquei sem bateria, depois consegui ligar, mas depois não tinha o PIN, então tive de ligar, olha, uma confusão. Ele enervou-se muito por eu estar stressada com o telefone e começou… Levantou-se, já estava em tronco nu, grande, forte para caralho, a sala, a porta dá diretamente para a rua, para a serra, tem um pátio com os cães e a serra depois.
E estávamos ali naquela sala, só a porta, não havia nenhuma divisão a impedir-me de sair, mas ele disse-me que não merecia o que lhe estava a acontecer, que cheguei a casa e que não tinha feito…
Não tinha tratado bem dele.
Isso foi muito estranho porque até ali, até entramos na casa dele, estávamos num lugar…. de…
Estávamos a seduzir e, de repente, ele passou para um papel de…
Como se houvesse ali coisas adquiridas e eu tivesse uma postura específica que tivesse de ter, uma gratidão para com ele como o rapaz do telefone que também queria ser cantor. E disse-lhe que estava… Que estava nervosa, que não me estava a sentir bem, e que queria ir embora.
E ele disse-me, Não, não, não vais embora. Não vais embora agora.
E disse-lhe, Mas tu disseste-me qualquer coisa para eu te dizer, e que tu me chamavas um carro para eu voltar para casa.
Ele disse-me, Não, não, eu não vou fazer isso, porque eu não mereço isso.
Não vieste até aqui, para agora.
Eu ficar sozinho o resto da noite.
E, pronto, começámos a discutir.
Não sei, pronto.
E, de repente, eu sinto uma coisa a passar-me, assim, a rentar a cabeça e o barulho
zás!!!
trumm!
Pronto, era a lareira, o vidro da lareira a partir, com o objeto que ele atirou na direcção da minha cabeça, e que me passou à razia.
Eu tinha bloqueado o meu telemóvel, enganei-me 3 vezes no pin.
Eu, na altura, lembro-me que cheguei até a sair da situação e vi-me de fora.
E vi-nos de fora, porque ele estava a dizer coisas tão clichê.
Ele disse assim, tu estás a ver?
Ele estava completamente descontrolado, parece que os músculos dele tinham crescido.
Ele era enorme.
E eu disse, eu vou-me embora.
E ele disse, vais vais, para o meio da serra.
Eu disse, vou, não quero saber.
Vou, vou para o meio da serra, hei-de encontrar alguém.
São quatro da manhã, não há ninguém.
Não faz mal, eu vou.
Não, a minha porta ninguém abre.
Quem abre a porta da minha casa sou eu.
E isto, eu estava a tentar avançar em direção à porta e foi tão ameaçador a forma como ele disse isto, que eu percebi imediatamente que se eu tentasse abrir a porta, eu não conseguia.
Ele vinha atrás de mim agarrava-me e tapava a boca, ou o que fosse, e eu estava… Não havia vida lá fora. Só noite e os caes, três ou quatro, ali à porta.
Pronto. Então eu percebi que eu não podia abrir a porta, não é?
Portanto, estava trancada.
Pensei, este gajo está maluco, está-se a tornar agressivo. Tive medo, ele é forte, a serra é muda. Eu vou tomar calmantes e durmo até de manhã e até ser possível ir embora daqui, pensei.
E então pedi-lhe, Ah pá, estou muito ansiosa, arranjas um calmante?
Disse que não me ia dar. Porque podia-me acontecer alguma coisa e ele não se queria responsabilizar.
Então eu percebi que tinha que estar acordada e estar com ele. Como ele queira.
Se não podia dormir e dessa forma fugir ao confronto, e não saber o que ia acontecer e não reagir e não provocar… Então eu ia ter que estar muito alerta.
Bom, então acho que foi rapidamente que percebi que tinha que manipulá-lo.
E foi assim que eu estive desde esta madrugada até que às quatro da tarde do dia a seguir, ele estava fazer a mala, tinha um concerto em Vigo.
Quando ligou a editora dele a dizer, Como é que tu não estás ainda a sair para Vigo, Mauro?
Como é possível?
Tiveram discussão sobre as expectativas dela para com ele. Ela lembra-se de certeza dessa conversa.
‘Toda uma equipa à tua espera!’
Sendo que ele era suposto estar a chegar a Vigo por volta das cinco da tarde.
E às quatro ainda estavam a ter esta conversa. Serra da Freita.
Eu estive muitas horas ali. Doze?
Então, começo a recordar-me, foda-se. Partiu a lareira! Não estou a tratá-lo como ele merece. Ele queria um abraço.
Depois disto, começou a parecer uma criança. De repente, aqueles músculos gigantes a crescer passaram para uma expressão de bebé.
Eu não queria estar zangado, dizia ele. Não me queria zangar contigo. Vamos fazer as pazes. Vá lá. Dá-me um abraço. Consegues fazer isso?
Pedinchava a choramingar.
Acho que na verdade foi aí só que eu percebi que eu tinha que entrar no jogo.
Aquilo era tudo demasiado absurdo. Nada fazia sentido. E pronto. Foi assim que eu estive a ouvi-lo a ler poesia. Durante uma espera pelo amanhecer.
E, na verdade… Além da poesia… poesia, poesia. Ele fez uma performance para mim.
Um escritor argentino. No quiero el mundo de mierda para nada. Ele fez uma sessão privada do trabalho final do curso dele. Foi a PAP, o trabalho final.
Ele disse-me várias vezes nessa noite
que tinha sido… unânima uma ovação de pé. E… Ele estava completamente maníaco a contar como ele estava a dizer aquelas merdas,
aquelas asneiras todas que não quer o mundo de merda, e que essas pessoas todas se levantaram e disseram ali que ele era o melhor.
Perguntava-me. Quem é melhor que eu? Dá-me um exemplo.
Eu estava sentada no sofá. Na tal sala com os cães à porta. E ele estava à minha frente. Toda a noite, P.P., a contar-me histórias de… de centores e…
E diz-me? Quem? O Tomás Wallenstein? Dá-me um exemplo.
Alguma horas depois veio-se para cima de mim. Eu tinha tesão, no meio daquele medo todo.
Vestidas as cuecas rosa choque, grandes, como ele gosta, as cuecas que me comprou nessa tarde específicamente para estimular uma fantasia específica que tinha.
O pau não chegou a ficar duro.
Estávamos quase a sair atrasados para a viagem dele onde ainda me tentaria levar antes de me deixar na auto estrada a implorar-me que fosse com ele.
Só via a saída a ficar para tras.
Foda-se. Eu tenho de ir. Tenho de sair aqui.
IMPARÁVEL
O PROSTITUTO PORTUGUÊS
IMPARÁVEL (PARTE UM)
A surfista aponta com um dos dois finos que traz na mão, em copos de plástico, na minha direcção. Logo recua o gesto para si mesma, cantarola um Nã nã nã, e estica a boca para me sorrir. Aquela maneira que as gajas adultas faziam quando eu ainda era menor.
Fico confuso. Num instante apenas, achei que era menor outra vez. Mas já não sou. Olhando bem, ela é mais velha do que eu julguei que fosse. Deve ser por isso que me olha assim. Sigo-a com o olhar, está a levar a cerveja ao Mauro. Ele nem olha. Continua a tocar guitarra com a Adelaide, a dona do bar de praia, e com o Espinhas, filho dela. A Margot fuma para cima da cena, o que ajuda ao tom. A luz de um projector pendurado numa haste de madeira trespassa o fumo. Vejo como se serpentea pelos convivas, que cobrem com ânimo o marulhar nocturno de um oceano descansado.
É dessa bela cena que contemplo do meu canto, mais afastado, que dispara como uma flecha em arco, a provocação do Mauro. Cheiras a leitinho ó P.P.. Rio-me. E sem querer, troco um olhar com a Margot — o que me faz sentir que afinal não me estava a rir. Não como me rio quando estamos só os dois, no sofá desengançado de casa dela.
Mantive-me afastado. O Espinhas tem agora a guitarra, e a Adelaide empoleira-se para dar voz à ocasião. Os ânimos levantam-se. E o Mauro também. Vem para o pé de mim.
Então, P.P. estás aí, sozinho, não te misturas com a gente. Como é que é?
Estou fixe.
Não gostas disto aqui?
Gosto.
Isto é que é vida. Surf, bares de pescadores, tás a ver. Vida simples, meu. Tens de saber apreciar estas coisas. E mexilhão, claro. Olha ali. Aponta para as pernas roliças e morenas da surfista mais velha, sufocadas dentro de uns calções de ganga. Afastas as pedras e encontras o mexilhão. Diz lá se há melhor sítio para viver. Não há.
Olho para o mar. Desse lado, escuro, imenso, parece-me haver algo para viver.
P.P. vou andando. É a voz da Margot. Olho. Está de pé.
Vais assim, Margot? Não queres vir lá a minha casa um bocado? Anda lá. Vocês ainda não foram lá.
Não, não vai ser hoje. Vou-me levantar cedo e ainda tenho muito que conduzir até casa.
Vou para me levantar. Ele trava-me.
Eh onde é que tu também vais?
Não quero que a Margot vá sozinha, respondo.
O Mauro, insistente, Margot, queres que te vamos levar para não ires sozinha? Podemos.
Ela parece estar sem paciência. Começa a descer as escadas de madeira.
P.P., tu podes ficar. Eu vou-me pôr a caminho.
Nós levamos-te, continua o Mauro.
Não preciso que ninguém me leve, diz a Margot, já a desaparecer.
O Mauro vira-se para mim. Vês? Ela vai bem sozinha. E agora se não queres estar com esta malta, vais conhecer a minha casa.
Já me meti em demasiadas coisas para me perguntar em que é que me estou a meter. Em vez disso só não entendo como é que me deixo levar pelas marés — como um pedaço de plástico a boiar por ondas, tempestades, baías, leitos.
Entro no Ferrari do Mauro e é como se voltasse ao Jipe preto em que entrei quando era miúdo. Não porque o Mauro fosse abusar de mim. Aliás, toda a gente tem o fetiche de foder com o Mauro, mas ninguém consegue abusar — nem ser abusado — por ele. O gajo parece que assexuou o corpo fantástico e desejável que Deus lhe deu. O que me faz voltar a essa ideia tantas vezes é uma certa passividade em permitir que as coisas me aconteçam. Não sei se porque, de alguma maneira, espero repetir algum acontecimento, ou se porque, pelo contrário, nunca nada aconteceu. E quando estava para acontecer — acontecer em mim — eu quis continuar a viagem.
Ao ver o Mauro a conduzir velozmente pela serra, sem receio do perigo em que nos põe, pergunto-lhe, Seguirias viagem?
IMPARÁVEL (PARTE DOIS)
É enorme a casa. Os cães saltam pelo Mauro acima e cheiram-me até aos ossos, mas ele agarra neles, põe-nos fora no pátio, e fecha a porta da sala. Já não chateiam, diz.
Põe-te à vontade. Queres beber o quê? Tu vê lá não te ponhas a fazer grandes misturas com drogas, eu sei do que falo.
Não mandei/
Não mandaste, não mandaste ainda. Não queres seguir viagem? Então, seguir viagem é seguir viagem. Não há muitos como nós, sabes. Por isso é que eu te trouxe cá. Não penses que vem qualquer pessoa a minha casa. Também já não estávamos a fazer lá nada no bar. Não é que eu não goste daquilo, eu gosto, tem boa onda. Mas isto, quando estamos nós, quando se acerta assim, um gajo tem de seguir, seguir viagem é seguir viagem, não é? Tu percebeste. No carro. Tu percebeste no carro. Por isso é que te viraste para mim e perguntaste. Mas não perguntaste, pois não? Não era bem uma pergunta. Era outra cena. Era retórica. Sabes o que é uma pergunta retórica. Sabes, claro que sabes.
Ouço os cães lá fora. Aproveito para perguntar, E os cães? Levas os cães contigo?
Não. Tenho quem tome conta deles. Olha, vou mudar de roupa. E se vamos partir, não vamos levar muita coisa, senão fica logo tudo muito planeado, perde-se a coisa espontânea, que é a melhor, é onde está o busílis da filosofia, do bicho, do que quer que isto seja – esta coisa que andamos para aqui a fazer. A cena é que ninguém sabe.
Ele entra por uma porta. Fico para ali na sala. Passeio a mirada pelos pertences por cima da lareira. Penso se não deveria ter ido com a Margot. Já deve ter estar em casa. Pego no telemóvel para saber se chegou bem.
Então, o que é que estás a fazer, ouço o Mauro perguntar ao voltar pela mesma porta por onde entrou. Está de cuecas. Exibe os braços. O peito, os abdominais. Músculos das pernas, gémeos. O sexo enroscado no tecido branco elástico. Estás com o telemóvel na mão para quê? Estás a fazer alguma coisa com isso?
Fico atrapalhado. Não, estou só…
Aponta aí para mim, então, diz-me. Se estás com ele na mão, tens de o usar. Isto é como quando és apanhado a bater uma. Mais vale seres digno e vires-te na cara de quem te apanhou. Anda, aponta aí. Então? Tás a cheirar a leitinho.
Eu aponto.
Agora filma.
Eu vou a medo com o dedo nervoso ao ecrã do telemóvel procurar o rec da câmara. Ligo. Começo a filmar.
Tás a filmar?
Tou.
Não me apontes para a cara. Assim, não. Aponta para o corpo. Vê isto como um objecto. É só um corpo. Não é mais do que isso. Não consegues ver nisto só um corpo? Não é o Mauro, não é ninguém. É só carne, carne quente. Olha. Dá cá, chega cá a tua mão. Vê.
Ele pega na minha mão e põe-na na barriga dele. É dura, muito lisa e respira. Desce um pouco. Está rente às cuecas. Vês? É ou não é só um corpo?
É, digo-lhe vencido.
Estás a apontar-me para a cara.
Não está a filmar.
Não quero saber. Desliga isso.
Está desligado.
Não interessa. Não apontes essa merda.
Estás-te a passar?
Ele ri-se. Aponta com o dedo para a minha cara. Só se passa quem estiver deste lado. Tu estás do lado de quem?
Hã?
Estás do lado de quem? Do meu ou do da tua amiga?
Eu agora estou aqui.
Pois estás. E eu olha, sabes que mais? Me cago en Dios. Sabias que essa foi a minha tese? Me cago en Dios. Tive uma ovação de pé.
De mestrado?
Não. Aí é que está. De PAP. Que é muito mais importante, vocês é que não percebem.
Começou-me a parecer que não iriamos sair daquela casa. Vais-te vestir, perguntei.
Vou ainda tomar banho. Curtes ler poesia? Podias ler para mim enquanto eu tomo banho.
Eh pa, Mauro. Mas tu estás numa de ir e seguir viagem ou nem por isso?
P.P., já te disse que sim, não disse?
Disseste, mas agora estás a falar em ler-te poesia, não me parece que te estejas a despachar para irmos.
A despachar? Mas tu estás agora a gozar comigo? A despachar, foi isso que tu disseste?
Isto começava a assustar-me. Olhei para a porta da sala e lembrei-me dos cães que, embora grandes, eram amistosos.
Mas que caralho de viagem é que é essa? Não estamos no mesmo comprimento de onda, como eu pensei, então. Porque o gajo que falou comigo no carro, falou-me em seguir viagem, essa viagem que se segue, essa viagem interior, e que extravassa pela noite fora, pelo dia fora, que vai por aí, que não para nunca, que sabe-se lá para onde vai. É essa viagem ou não é?
É. É essa.
Então, explica-me lá, só para ver se eu estou a perceber, se nós não sabemos onde é que a viagem vai parar, estás com tanta pressa para chegar aonde?
Senti-me francamente estúpido, mas irritado também.
A lado nenhum. Caga nisso.
ME CAGO EN DIOS, grunhe com os braços de Adónis para o tecto alto da enorme sala. Depois baixou-os e no mesme lance desceu as cuecas até aos pés, fazendo balouçar um belíssimo pénis, entoucado por uma pele morena, preso a uma sóbria camada de pêlos firmes no púbis e empurrado pelo movimento pendular dos testículos – que davam talvez a ilusória impressão de estar a ter uma ligeira erecção.
Agora é devias ter estado com a câmara ligada, diz-me. E sai na direcção do duche, mostrando sem medo o mais ternurento e delicioso rabo de que se podia ter tido o deslumbre de ver e perder de vista.
Olhei para as estantes, à procura de um livro de poesia. Onde é que eles estariam? Encontrei um. Fui atrás do som da água a cair da pele dele sobre a louça da base de duche. A porta estava aberta. Não foi preciso bater.
Encontrei um livro.
Lê. Lê um poema. Mas lê alto para eu ouvir.
Sentei-me no tampo da sanita. Abri o livro. Olhei para ele a ensaboar-se, a espuma a cavalgar-lhe pela pele luminosa. Voltei ao livro. Disse alto para que me ouvisse, Ânsia de amar Oh ânsia de viver uma hora só que seja, mas vivida e satisfeita… e pode-se morrer, porque se morre abençoando a vida! Ele lava o pénis com a mão, apertando-o. Sabe que os meus olhos espreitam.
Mas essa hora suprema em que se vive quanto possa sonhar-se de ventura, oh vida mentirosa, oh vida impura, esperei-a, esperei-a, e nunca a tive! E quantos como eu a desejaram, e quantos como eu nunca a tiveram, uma hora de amor como a sonharam! Ele agacha-se, de cócoras. Passa as mãos pelas coxas, abraça as pernas. Eu continuo, Em quantos olhos tristes tenho eu lido
o desespero dos que não viveram esse sonho de amor incompreendido.
A água cai-lhe na nuca. Mauro? Estás bem?
Ele chora. Fecho a torneira do duche. Deito a toalha sobre as costas dele. Envolvo-o.
Sabes o que é que me custa, P.P.? É que os que dizem que sabem quem eu sou, os que acham que me conhecem, vivem a vida mentirosa. A vida mentirosa, repara no que diz o poeta. A vida mentirosa, e vivem a vida mentirosa a dizerem aos outros como é que devem viver a sua vida. Eu não confio em ninguém P.P., eu sei como é que me olham. Eu vejo o fingimento.
Ninguém te olha de maneira nenhuma.
Não mintas, também tu. Tu não és assim. Não comeces a ser agora. Eu sei, P.P.. As pessoas ferem com o olhar. E não é sem querer. Só não ferem mais porque não podem. Achas que eu não sei? Essa tua amiga Margot é uma delas?
A Margot?
Sim, essa. Achas que eu não sinto. Deve estar zangada por achar que eu não a acho mulher o suficiente.
É o que tu achas?
Levanta-se. O pénis, agora lavado, fica à altura da minha cabeça. Disfarço. Tento olhar para cima, para ele.
Dessa tua amiga Margot até acho. Se fosse mulher o suficiente não precisava de me olhar assim.
E diz uma mulher que seja que aches que não te olhe assim.
Tu.
Eu não sou mulher.
Isso eu não sei. Estou aqui com o meu pirilau à mostra e não vi o teu. Deixa lá ver.
Diz isto e lança-se a desapertar-me as calças.
Está quieto, pá. Afasto-o.
Ele continua. Agora mostras. Quero ver se não me estás aí a enganar e se não és uma gaja disfarçada. Se fores, vou-te arrancar esse mexilhão à dentada. Vais ver.
Isso eu gostava de ver.
Ai gostavas?
O Mauro lança-se a mim como o pulo de um animal em ataque e prende-me de costas contra o chão. Eu esperneio.
Estás forte? Para quem cheira a leitinho? Ele senta-se nas minhas costas, nu, com os joelhos um para cada lado da minha cabeça. Tento virar-me enquanto ele me baixa as calças com as cuecas junto.
Pá, está quieto.
Vamos lá ver o que é que temos aqui.
Consigo voltar-me de frente e aquele pénis perfeito está agora praticamente a bater-me na cara. Tento empurra-lo mas ele é forte. Sinto a mão dele agarrar-me no meu pénis e apertá-lo.
Temos vergalho. Deixa lá ver se não é falso. E aqui, são tomates a sério? Parece que sim. Estás livre, passas-te no exame do Mauro ginecologista. Dito isto, solta-me.
Tu és muita passado, pá.
E tu és muito homem. Isso é que é pena. Até nos encaixamos bem. E curto ouvir-te a ler poesia. Quase me dás tusa.
Pois mais vale contentares-te porque não tou é a ver nenhuma mulher que te vá aguentar, Mauro.
Já te disse que nem todas as mulheres são como a tua amiga, Margot. E que nem a acho assim tão mulher. Ela é que se deve achar mais mulher que as outras. Mas olha que há uma mulher, e essa sim é mulher, mulher mesmo, dessas com mexilhão no meio das pedras, que é cá da nossa irmandade. E tu conheces.
Aperto o cinto. Quem, pergunto.
Uma meio francesa.
Aguardo que ele me diga.
Tu sabes quem é.
A Sophie, arrisco.
Eu disse-te que tu sabias.
Essa sim, foi das tais que pôde vir cá a casa.
Tive um laivo de ciúme. A Sophie ali, com ele.
Ela, tu, eu, somos a irmandade da viagem.
A viagem que não começou, pergunto-lhe, irritado com tudo.
Mas nada o parece afectar. Diz-me, satisfeito, A viagem que começou. E que nunca vai parar.
IMPARÁVEL (PARTE TRÊS)
Então, cheguei lá a casa e não tinha bateria no telefone e fiquei um bocadinho estressada, porque estava no meio do nada e o Mauro estava ao telefone com uma pessoa dali das redondezas, muito fã, um rapaz muito fã dele que estava muito contente por estar a falar com ele ao telefone. E nisso estiveram uns bons 40 minutos, uma hora.
E, no entretanto, eu fazia-lhe sinais se ele podia dar-me o contacto de algum amigo meu. Porque eu, entretanto, tinha conseguido recuperar o… Eu tinha, olha, eu esqueci-me do PIN, eu fiquei sem bateria, depois consegui ligar, mas depois não tinha o PIN, então tive de ligar, olha, uma confusão. Ele enervou-se muito por eu estar stressada com o telefone e começou… Levantou-se, já estava em tronco nu, grande, forte para caralho, a sala, a porta dá diretamente para a rua, para a serra, tem um pátio com os cães e a serra depois.
E estávamos ali naquela sala, só a porta, não havia nenhuma divisão a impedir-me de sair, mas ele disse-me que não merecia o que lhe estava a acontecer, que cheguei a casa e que não tinha feito…
Não tinha tratado bem dele.
Isso foi muito estranho porque até ali, até entramos na casa dele, estávamos num lugar…. de…
Estávamos a seduzir e, de repente, ele passou para um papel de…
Como se houvesse ali coisas adquiridas e eu tivesse uma postura específica que tivesse de ter, uma gratidão para com ele como o rapaz do telefone que também queria ser cantor. E disse-lhe que estava… Que estava nervosa, que não me estava a sentir bem, e que queria ir embora.
E ele disse-me, Não, não, não vais embora. Não vais embora agora.
E disse-lhe, Mas tu disseste-me qualquer coisa para eu te dizer, e que tu me chamavas um carro para eu voltar para casa.
Ele disse-me, Não, não, eu não vou fazer isso, porque eu não mereço isso.
Não vieste até aqui, para agora.
Eu ficar sozinho o resto da noite.
E, pronto, começámos a discutir.
Não sei, pronto.
E, de repente, eu sinto uma coisa a passar-me, assim, a rentar a cabeça e o barulho
zás!!!
trumm!
Pronto, era a lareira, o vidro da lareira a partir, com o objeto que ele atirou na direcção da minha cabeça, e que me passou à razia.
Eu tinha bloqueado o meu telemóvel, enganei-me 3 vezes no pin.
Eu, na altura, lembro-me que cheguei até a sair da situação e vi-me de fora.
E vi-nos de fora, porque ele estava a dizer coisas tão clichê.
Ele disse assim, tu estás a ver?
Ele estava completamente descontrolado, parece que os músculos dele tinham crescido.
Ele era enorme.
E eu disse, eu vou-me embora.
E ele disse, vais vais, para o meio da serra.
Eu disse, vou, não quero saber.
Vou, vou para o meio da serra, hei-de encontrar alguém.
São quatro da manhã, não há ninguém.
Não faz mal, eu vou.
Não, a minha porta ninguém abre.
Quem abre a porta da minha casa sou eu.
E isto, eu estava a tentar avançar em direção à porta e foi tão ameaçador a forma como ele disse isto, que eu percebi imediatamente que se eu tentasse abrir a porta, eu não conseguia.
Ele vinha atrás de mim agarrava-me e tapava a boca, ou o que fosse, e eu estava… Não havia vida lá fora. Só noite e os caes, três ou quatro, ali à porta.
Pronto. Então eu percebi que eu não podia abrir a porta, não é?
Portanto, estava trancada.
Pensei, este gajo está maluco, está-se a tornar agressivo. Tive medo, ele é forte, a serra é muda. Eu vou tomar calmantes e durmo até de manhã e até ser possível ir embora daqui, pensei.
E então pedi-lhe, Ah pá, estou muito ansiosa, arranjas um calmante?
Disse que não me ia dar. Porque podia-me acontecer alguma coisa e ele não se queria responsabilizar.
Então eu percebi que tinha que estar acordada e estar com ele. Como ele queira.
Se não podia dormir e dessa forma fugir ao confronto, e não saber o que ia acontecer e não reagir e não provocar… Então eu ia ter que estar muito alerta.
Bom, então acho que foi rapidamente que percebi que tinha que manipulá-lo.
E foi assim que eu estive desde esta madrugada até que às quatro da tarde do dia a seguir, ele estava fazer a mala, tinha um concerto em Vigo.
Quando ligou a editora dele a dizer, Como é que tu não estás ainda a sair para Vigo, Mauro?
Como é possível?
Tiveram discussão sobre as expectativas dela para com ele. Ela lembra-se de certeza dessa conversa.
‘Toda uma equipa à tua espera!’
Sendo que ele era suposto estar a chegar a Vigo por volta das cinco da tarde.
E às quatro ainda estavam a ter esta conversa. Serra da Freita.
Eu estive muitas horas ali. Doze?
Então, começo a recordar-me, foda-se. Partiu a lareira! Não estou a tratá-lo como ele merece. Ele queria um abraço.
Depois disto, começou a parecer uma criança. De repente, aqueles músculos gigantes a crescer passaram para uma expressão de bebé.
Eu não queria estar zangado, dizia ele. Não me queria zangar contigo. Vamos fazer as pazes. Vá lá. Dá-me um abraço. Consegues fazer isso?
Pedinchava a choramingar.
Acho que na verdade foi aí só que eu percebi que eu tinha que entrar no jogo.
Aquilo era tudo demasiado absurdo. Nada fazia sentido. E pronto. Foi assim que eu estive a ouvi-lo a ler poesia. Durante uma espera pelo amanhecer.
E, na verdade… Além da poesia… poesia, poesia. Ele fez uma performance para mim.
Um escritor argentino. No quiero el mundo de mierda para nada. Ele fez uma sessão privada do trabalho final do curso dele. Foi a PAP, o trabalho final.
Ele disse-me várias vezes nessa noite
que tinha sido… unânima uma ovação de pé. E… Ele estava completamente maníaco a contar como ele estava a dizer aquelas merdas,
aquelas asneiras todas que não quer o mundo de merda, e que essas pessoas todas se levantaram e disseram ali que ele era o melhor.
Perguntava-me. Quem é melhor que eu? Dá-me um exemplo.
Eu estava sentada no sofá. Na tal sala com os cães à porta. E ele estava à minha frente. Toda a noite, P.P., a contar-me histórias de… de centores e…
E diz-me? Quem? O Tomás Wallenstein? Dá-me um exemplo.
Alguma horas depois veio-se para cima de mim. Eu tinha tesão, no meio daquele medo todo.
Vestidas as cuecas rosa choque, grandes, como ele gosta, as cuecas que me comprou nessa tarde específicamente para estimular uma fantasia específica que tinha.
O pau não chegou a ficar duro.
Estávamos quase a sair atrasados para a viagem dele onde ainda me tentaria levar antes de me deixar na auto estrada a implorar-me que fosse com ele.
Só via a saída a ficar para tras.
Foda-se. Eu tenho de ir. Tenho de sair aqui.
IMPARÁVEL
O PROSTITUTO PORTUGUÊS
IMPARÁVEL (PARTE UM)
A surfista aponta com um dos dois finos que traz na mão, em copos de plástico, na minha direcção. Logo recua o gesto para si mesma, cantarola um Nã nã nã, e estica a boca para me sorrir. Aquela maneira que as gajas adultas faziam quando eu ainda era menor.
Fico confuso. Num instante apenas, achei que era menor outra vez. Mas já não sou. Olhando bem, ela é mais velha do que eu julguei que fosse. Deve ser por isso que me olha assim. Sigo-a com o olhar, está a levar a cerveja ao Mauro. Ele nem olha. Continua a tocar guitarra com a Adelaide, a dona do bar de praia, e com o Espinhas, filho dela. A Margot fuma para cima da cena, o que ajuda ao tom. A luz de um projector pendurado numa haste de madeira trespassa o fumo. Vejo como se serpentea pelos convivas, que cobrem com ânimo o marulhar nocturno de um oceano descansado.
É dessa bela cena que contemplo do meu canto, mais afastado, que dispara como uma flecha em arco, a provocação do Mauro. Cheiras a leitinho ó P.P.. Rio-me. E sem querer, troco um olhar com a Margot — o que me faz sentir que afinal não me estava a rir. Não como me rio quando estamos só os dois, no sofá desengançado de casa dela.
Mantive-me afastado. O Espinhas tem agora a guitarra, e a Adelaide empoleira-se para dar voz à ocasião. Os ânimos levantam-se. E o Mauro também. Vem para o pé de mim.
Então, P.P. estás aí, sozinho, não te misturas com a gente. Como é que é?
Estou fixe.
Não gostas disto aqui?
Gosto.
Isto é que é vida. Surf, bares de pescadores, tás a ver. Vida simples, meu. Tens de saber apreciar estas coisas. E mexilhão, claro. Olha ali. Aponta para as pernas roliças e morenas da surfista mais velha, sufocadas dentro de uns calções de ganga. Afastas as pedras e encontras o mexilhão. Diz lá se há melhor sítio para viver. Não há.
Olho para o mar. Desse lado, escuro, imenso, parece-me haver algo para viver.
P.P. vou andando. É a voz da Margot. Olho. Está de pé.
Vais assim, Margot? Não queres vir lá a minha casa um bocado? Anda lá. Vocês ainda não foram lá.
Não, não vai ser hoje. Vou-me levantar cedo e ainda tenho muito que conduzir até casa.
Vou para me levantar. Ele trava-me.
Eh onde é que tu também vais?
Não quero que a Margot vá sozinha, respondo.
O Mauro, insistente, Margot, queres que te vamos levar para não ires sozinha? Podemos.
Ela parece estar sem paciência. Começa a descer as escadas de madeira.
P.P., tu podes ficar. Eu vou-me pôr a caminho.
Nós levamos-te, continua o Mauro.
Não preciso que ninguém me leve, diz a Margot, já a desaparecer.
O Mauro vira-se para mim. Vês? Ela vai bem sozinha. E agora se não queres estar com esta malta, vais conhecer a minha casa.
Já me meti em demasiadas coisas para me perguntar em que é que me estou a meter. Em vez disso só não entendo como é que me deixo levar pelas marés — como um pedaço de plástico a boiar por ondas, tempestades, baías, leitos.
Entro no Ferrari do Mauro e é como se voltasse ao Jipe preto em que entrei quando era miúdo. Não porque o Mauro fosse abusar de mim. Aliás, toda a gente tem o fetiche de foder com o Mauro, mas ninguém consegue abusar — nem ser abusado — por ele. O gajo parece que assexuou o corpo fantástico e desejável que Deus lhe deu. O que me faz voltar a essa ideia tantas vezes é uma certa passividade em permitir que as coisas me aconteçam. Não sei se porque, de alguma maneira, espero repetir algum acontecimento, ou se porque, pelo contrário, nunca nada aconteceu. E quando estava para acontecer — acontecer em mim — eu quis continuar a viagem.
Ao ver o Mauro a conduzir velozmente pela serra, sem receio do perigo em que nos põe, pergunto-lhe, Seguirias viagem?
IMPARÁVEL (PARTE DOIS)
É enorme a casa. Os cães saltam pelo Mauro acima e cheiram-me até aos ossos, mas ele agarra neles, põe-nos fora no pátio, e fecha a porta da sala. Já não chateiam, diz.
Põe-te à vontade. Queres beber o quê? Tu vê lá não te ponhas a fazer grandes misturas com drogas, eu sei do que falo.
Não mandei/
Não mandaste, não mandaste ainda. Não queres seguir viagem? Então, seguir viagem é seguir viagem. Não há muitos como nós, sabes. Por isso é que eu te trouxe cá. Não penses que vem qualquer pessoa a minha casa. Também já não estávamos a fazer lá nada no bar. Não é que eu não goste daquilo, eu gosto, tem boa onda. Mas isto, quando estamos nós, quando se acerta assim, um gajo tem de seguir, seguir viagem é seguir viagem, não é? Tu percebeste. No carro. Tu percebeste no carro. Por isso é que te viraste para mim e perguntaste. Mas não perguntaste, pois não? Não era bem uma pergunta. Era outra cena. Era retórica. Sabes o que é uma pergunta retórica. Sabes, claro que sabes.
Ouço os cães lá fora. Aproveito para perguntar, E os cães? Levas os cães contigo?
Não. Tenho quem tome conta deles. Olha, vou mudar de roupa. E se vamos partir, não vamos levar muita coisa, senão fica logo tudo muito planeado, perde-se a coisa espontânea, que é a melhor, é onde está o busílis da filosofia, do bicho, do que quer que isto seja – esta coisa que andamos para aqui a fazer. A cena é que ninguém sabe.
Ele entra por uma porta. Fico para ali na sala. Passeio a mirada pelos pertences por cima da lareira. Penso se não deveria ter ido com a Margot. Já deve ter estar em casa. Pego no telemóvel para saber se chegou bem.
Então, o que é que estás a fazer, ouço o Mauro perguntar ao voltar pela mesma porta por onde entrou. Está de cuecas. Exibe os braços. O peito, os abdominais. Músculos das pernas, gémeos. O sexo enroscado no tecido branco elástico. Estás com o telemóvel na mão para quê? Estás a fazer alguma coisa com isso?
Fico atrapalhado. Não, estou só…
Aponta aí para mim, então, diz-me. Se estás com ele na mão, tens de o usar. Isto é como quando és apanhado a bater uma. Mais vale seres digno e vires-te na cara de quem te apanhou. Anda, aponta aí. Então? Tás a cheirar a leitinho.
Eu aponto.
Agora filma.
Eu vou a medo com o dedo nervoso ao ecrã do telemóvel procurar o rec da câmara. Ligo. Começo a filmar.
Tás a filmar?
Tou.
Não me apontes para a cara. Assim, não. Aponta para o corpo. Vê isto como um objecto. É só um corpo. Não é mais do que isso. Não consegues ver nisto só um corpo? Não é o Mauro, não é ninguém. É só carne, carne quente. Olha. Dá cá, chega cá a tua mão. Vê.
Ele pega na minha mão e põe-na na barriga dele. É dura, muito lisa e respira. Desce um pouco. Está rente às cuecas. Vês? É ou não é só um corpo?
É, digo-lhe vencido.
Estás a apontar-me para a cara.
Não está a filmar.
Não quero saber. Desliga isso.
Está desligado.
Não interessa. Não apontes essa merda.
Estás-te a passar?
Ele ri-se. Aponta com o dedo para a minha cara. Só se passa quem estiver deste lado. Tu estás do lado de quem?
Hã?
Estás do lado de quem? Do meu ou do da tua amiga?
Eu agora estou aqui.
Pois estás. E eu olha, sabes que mais? Me cago en Dios. Sabias que essa foi a minha tese? Me cago en Dios. Tive uma ovação de pé.
De mestrado?
Não. Aí é que está. De PAP. Que é muito mais importante, vocês é que não percebem.
Começou-me a parecer que não iriamos sair daquela casa. Vais-te vestir, perguntei.
Vou ainda tomar banho. Curtes ler poesia? Podias ler para mim enquanto eu tomo banho.
Eh pa, Mauro. Mas tu estás numa de ir e seguir viagem ou nem por isso?
P.P., já te disse que sim, não disse?
Disseste, mas agora estás a falar em ler-te poesia, não me parece que te estejas a despachar para irmos.
A despachar? Mas tu estás agora a gozar comigo? A despachar, foi isso que tu disseste?
Isto começava a assustar-me. Olhei para a porta da sala e lembrei-me dos cães que, embora grandes, eram amistosos.
Mas que caralho de viagem é que é essa? Não estamos no mesmo comprimento de onda, como eu pensei, então. Porque o gajo que falou comigo no carro, falou-me em seguir viagem, essa viagem que se segue, essa viagem interior, e que extravassa pela noite fora, pelo dia fora, que vai por aí, que não para nunca, que sabe-se lá para onde vai. É essa viagem ou não é?
É. É essa.
Então, explica-me lá, só para ver se eu estou a perceber, se nós não sabemos onde é que a viagem vai parar, estás com tanta pressa para chegar aonde?
Senti-me francamente estúpido, mas irritado também.
A lado nenhum. Caga nisso.
ME CAGO EN DIOS, grunhe com os braços de Adónis para o tecto alto da enorme sala. Depois baixou-os e no mesme lance desceu as cuecas até aos pés, fazendo balouçar um belíssimo pénis, entoucado por uma pele morena, preso a uma sóbria camada de pêlos firmes no púbis e empurrado pelo movimento pendular dos testículos – que davam talvez a ilusória impressão de estar a ter uma ligeira erecção.
Agora é devias ter estado com a câmara ligada, diz-me. E sai na direcção do duche, mostrando sem medo o mais ternurento e delicioso rabo de que se podia ter tido o deslumbre de ver e perder de vista.
Olhei para as estantes, à procura de um livro de poesia. Onde é que eles estariam? Encontrei um. Fui atrás do som da água a cair da pele dele sobre a louça da base de duche. A porta estava aberta. Não foi preciso bater.
Encontrei um livro.
Lê. Lê um poema. Mas lê alto para eu ouvir.
Sentei-me no tampo da sanita. Abri o livro. Olhei para ele a ensaboar-se, a espuma a cavalgar-lhe pela pele luminosa. Voltei ao livro. Disse alto para que me ouvisse, Ânsia de amar Oh ânsia de viver uma hora só que seja, mas vivida e satisfeita… e pode-se morrer, porque se morre abençoando a vida! Ele lava o pénis com a mão, apertando-o. Sabe que os meus olhos espreitam.
Mas essa hora suprema em que se vive quanto possa sonhar-se de ventura, oh vida mentirosa, oh vida impura, esperei-a, esperei-a, e nunca a tive! E quantos como eu a desejaram, e quantos como eu nunca a tiveram, uma hora de amor como a sonharam! Ele agacha-se, de cócoras. Passa as mãos pelas coxas, abraça as pernas. Eu continuo, Em quantos olhos tristes tenho eu lido
o desespero dos que não viveram esse sonho de amor incompreendido.
A água cai-lhe na nuca. Mauro? Estás bem?
Ele chora. Fecho a torneira do duche. Deito a toalha sobre as costas dele. Envolvo-o.
Sabes o que é que me custa, P.P.? É que os que dizem que sabem quem eu sou, os que acham que me conhecem, vivem a vida mentirosa. A vida mentirosa, repara no que diz o poeta. A vida mentirosa, e vivem a vida mentirosa a dizerem aos outros como é que devem viver a sua vida. Eu não confio em ninguém P.P., eu sei como é que me olham. Eu vejo o fingimento.
Ninguém te olha de maneira nenhuma.
Não mintas, também tu. Tu não és assim. Não comeces a ser agora. Eu sei, P.P.. As pessoas ferem com o olhar. E não é sem querer. Só não ferem mais porque não podem. Achas que eu não sei? Essa tua amiga Margot é uma delas?
A Margot?
Sim, essa. Achas que eu não sinto. Deve estar zangada por achar que eu não a acho mulher o suficiente.
É o que tu achas?
Levanta-se. O pénis, agora lavado, fica à altura da minha cabeça. Disfarço. Tento olhar para cima, para ele.
Dessa tua amiga Margot até acho. Se fosse mulher o suficiente não precisava de me olhar assim.
E diz uma mulher que seja que aches que não te olhe assim.
Tu.
Eu não sou mulher.
Isso eu não sei. Estou aqui com o meu pirilau à mostra e não vi o teu. Deixa lá ver.
Diz isto e lança-se a desapertar-me as calças.
Está quieto, pá. Afasto-o.
Ele continua. Agora mostras. Quero ver se não me estás aí a enganar e se não és uma gaja disfarçada. Se fores, vou-te arrancar esse mexilhão à dentada. Vais ver.
Isso eu gostava de ver.
Ai gostavas?
O Mauro lança-se a mim como o pulo de um animal em ataque e prende-me de costas contra o chão. Eu esperneio.
Estás forte? Para quem cheira a leitinho? Ele senta-se nas minhas costas, nu, com os joelhos um para cada lado da minha cabeça. Tento virar-me enquanto ele me baixa as calças com as cuecas junto.
Pá, está quieto.
Vamos lá ver o que é que temos aqui.
Consigo voltar-me de frente e aquele pénis perfeito está agora praticamente a bater-me na cara. Tento empurra-lo mas ele é forte. Sinto a mão dele agarrar-me no meu pénis e apertá-lo.
Temos vergalho. Deixa lá ver se não é falso. E aqui, são tomates a sério? Parece que sim. Estás livre, passas-te no exame do Mauro ginecologista. Dito isto, solta-me.
Tu és muita passado, pá.
E tu és muito homem. Isso é que é pena. Até nos encaixamos bem. E curto ouvir-te a ler poesia. Quase me dás tusa.
Pois mais vale contentares-te porque não tou é a ver nenhuma mulher que te vá aguentar, Mauro.
Já te disse que nem todas as mulheres são como a tua amiga, Margot. E que nem a acho assim tão mulher. Ela é que se deve achar mais mulher que as outras. Mas olha que há uma mulher, e essa sim é mulher, mulher mesmo, dessas com mexilhão no meio das pedras, que é cá da nossa irmandade. E tu conheces.
Aperto o cinto. Quem, pergunto.
Uma meio francesa.
Aguardo que ele me diga.
Tu sabes quem é.
A Sophie, arrisco.
Eu disse-te que tu sabias.
Essa sim, foi das tais que pôde vir cá a casa.
Tive um laivo de ciúme. A Sophie ali, com ele.
Ela, tu, eu, somos a irmandade da viagem.
A viagem que não começou, pergunto-lhe, irritado com tudo.
Mas nada o parece afectar. Diz-me, satisfeito, A viagem que começou. E que nunca vai parar.
IMPARÁVEL (PARTE TRÊS)
Então, cheguei lá a casa e não tinha bateria no telefone e fiquei um bocadinho estressada, porque estava no meio do nada e o Mauro estava ao telefone com uma pessoa dali das redondezas, muito fã, um rapaz muito fã dele que estava muito contente por estar a falar com ele ao telefone. E nisso estiveram uns bons 40 minutos, uma hora.
E, no entretanto, eu fazia-lhe sinais se ele podia dar-me o contacto de algum amigo meu. Porque eu, entretanto, tinha conseguido recuperar o… Eu tinha, olha, eu esqueci-me do PIN, eu fiquei sem bateria, depois consegui ligar, mas depois não tinha o PIN, então tive de ligar, olha, uma confusão. Ele enervou-se muito por eu estar stressada com o telefone e começou… Levantou-se, já estava em tronco nu, grande, forte para caralho, a sala, a porta dá diretamente para a rua, para a serra, tem um pátio com os cães e a serra depois.
E estávamos ali naquela sala, só a porta, não havia nenhuma divisão a impedir-me de sair, mas ele disse-me que não merecia o que lhe estava a acontecer, que cheguei a casa e que não tinha feito…
Não tinha tratado bem dele.
Isso foi muito estranho porque até ali, até entramos na casa dele, estávamos num lugar…. de…
Estávamos a seduzir e, de repente, ele passou para um papel de…
Como se houvesse ali coisas adquiridas e eu tivesse uma postura específica que tivesse de ter, uma gratidão para com ele como o rapaz do telefone que também queria ser cantor. E disse-lhe que estava… Que estava nervosa, que não me estava a sentir bem, e que queria ir embora.
E ele disse-me, Não, não, não vais embora. Não vais embora agora.
E disse-lhe, Mas tu disseste-me qualquer coisa para eu te dizer, e que tu me chamavas um carro para eu voltar para casa.
Ele disse-me, Não, não, eu não vou fazer isso, porque eu não mereço isso.
Não vieste até aqui, para agora.
Eu ficar sozinho o resto da noite.
E, pronto, começámos a discutir.
Não sei, pronto.
E, de repente, eu sinto uma coisa a passar-me, assim, a rentar a cabeça e o barulho
zás!!!
trumm!
Pronto, era a lareira, o vidro da lareira a partir, com o objeto que ele atirou na direcção da minha cabeça, e que me passou à razia.
Eu tinha bloqueado o meu telemóvel, enganei-me 3 vezes no pin.
Eu, na altura, lembro-me que cheguei até a sair da situação e vi-me de fora.
E vi-nos de fora, porque ele estava a dizer coisas tão clichê.
Ele disse assim, tu estás a ver?
Ele estava completamente descontrolado, parece que os músculos dele tinham crescido.
Ele era enorme.
E eu disse, eu vou-me embora.
E ele disse, vais vais, para o meio da serra.
Eu disse, vou, não quero saber.
Vou, vou para o meio da serra, hei-de encontrar alguém.
São quatro da manhã, não há ninguém.
Não faz mal, eu vou.
Não, a minha porta ninguém abre.
Quem abre a porta da minha casa sou eu.
E isto, eu estava a tentar avançar em direção à porta e foi tão ameaçador a forma como ele disse isto, que eu percebi imediatamente que se eu tentasse abrir a porta, eu não conseguia.
Ele vinha atrás de mim agarrava-me e tapava a boca, ou o que fosse, e eu estava… Não havia vida lá fora. Só noite e os caes, três ou quatro, ali à porta.
Pronto. Então eu percebi que eu não podia abrir a porta, não é?
Portanto, estava trancada.
Pensei, este gajo está maluco, está-se a tornar agressivo. Tive medo, ele é forte, a serra é muda. Eu vou tomar calmantes e durmo até de manhã e até ser possível ir embora daqui, pensei.
E então pedi-lhe, Ah pá, estou muito ansiosa, arranjas um calmante?
Disse que não me ia dar. Porque podia-me acontecer alguma coisa e ele não se queria responsabilizar.
Então eu percebi que tinha que estar acordada e estar com ele. Como ele queira.
Se não podia dormir e dessa forma fugir ao confronto, e não saber o que ia acontecer e não reagir e não provocar… Então eu ia ter que estar muito alerta.
Bom, então acho que foi rapidamente que percebi que tinha que manipulá-lo.
E foi assim que eu estive desde esta madrugada até que às quatro da tarde do dia a seguir, ele estava fazer a mala, tinha um concerto em Vigo.
Quando ligou a editora dele a dizer, Como é que tu não estás ainda a sair para Vigo, Mauro?
Como é possível?
Tiveram discussão sobre as expectativas dela para com ele. Ela lembra-se de certeza dessa conversa.
‘Toda uma equipa à tua espera!’
Sendo que ele era suposto estar a chegar a Vigo por volta das cinco da tarde.
E às quatro ainda estavam a ter esta conversa. Serra da Freita.
Eu estive muitas horas ali. Doze?
Então, começo a recordar-me, foda-se. Partiu a lareira! Não estou a tratá-lo como ele merece. Ele queria um abraço.
Depois disto, começou a parecer uma criança. De repente, aqueles músculos gigantes a crescer passaram para uma expressão de bebé.
Eu não queria estar zangado, dizia ele. Não me queria zangar contigo. Vamos fazer as pazes. Vá lá. Dá-me um abraço. Consegues fazer isso?
Pedinchava a choramingar.
Acho que na verdade foi aí só que eu percebi que eu tinha que entrar no jogo.
Aquilo era tudo demasiado absurdo. Nada fazia sentido. E pronto. Foi assim que eu estive a ouvi-lo a ler poesia. Durante uma espera pelo amanhecer.
E, na verdade… Além da poesia… poesia, poesia. Ele fez uma performance para mim.
Um escritor argentino. No quiero el mundo de mierda para nada. Ele fez uma sessão privada do trabalho final do curso dele. Foi a PAP, o trabalho final.
Ele disse-me várias vezes nessa noite
que tinha sido… unânima uma ovação de pé. E… Ele estava completamente maníaco a contar como ele estava a dizer aquelas merdas,
aquelas asneiras todas que não quer o mundo de merda, e que essas pessoas todas se levantaram e disseram ali que ele era o melhor.
Perguntava-me. Quem é melhor que eu? Dá-me um exemplo.
Eu estava sentada no sofá. Na tal sala com os cães à porta. E ele estava à minha frente. Toda a noite, P.P., a contar-me histórias de… de centores e…
E diz-me? Quem? O Tomás Wallenstein? Dá-me um exemplo.
Alguma horas depois veio-se para cima de mim. Eu tinha tesão, no meio daquele medo todo.
Vestidas as cuecas rosa choque, grandes, como ele gosta, as cuecas que me comprou nessa tarde específicamente para estimular uma fantasia específica que tinha.
O pau não chegou a ficar duro.
Estávamos quase a sair atrasados para a viagem dele onde ainda me tentaria levar antes de me deixar na auto estrada a implorar-me que fosse com ele.
Só via a saída a ficar para tras.
Foda-se. Eu tenho de ir. Tenho de sair aqui.
O PROSTITUTO PORTUGUÊS
IMPARÁVEL (PARTE UM)
A surfista aponta com um dos dois finos que traz na mão, em copos de plástico, na minha direcção. Logo recua o gesto para si mesma, cantarola um Nã nã nã, e estica a boca para me sorrir. Aquela maneira que as gajas adultas faziam quando eu ainda era menor.
Fico confuso. Num instante apenas, achei que era menor outra vez. Mas já não sou. Olhando bem, ela é mais velha do que eu julguei que fosse. Deve ser por isso que me olha assim. Sigo-a com o olhar, está a levar a cerveja ao Mauro. Ele nem olha. Continua a tocar guitarra com a Adelaide, a dona do bar de praia, e com o Espinhas, filho dela. A Margot fuma para cima da cena, o que ajuda ao tom. A luz de um projector pendurado numa haste de madeira trespassa o fumo. Vejo como se serpentea pelos convivas, que cobrem com ânimo o marulhar nocturno de um oceano descansado.
É dessa bela cena que contemplo do meu canto, mais afastado, que dispara como uma flecha em arco, a provocação do Mauro. Cheiras a leitinho ó P.P.. Rio-me. E sem querer, troco um olhar com a Margot — o que me faz sentir que afinal não me estava a rir. Não como me rio quando estamos só os dois, no sofá desengançado de casa dela.
Mantive-me afastado. O Espinhas tem agora a guitarra, e a Adelaide empoleira-se para dar voz à ocasião. Os ânimos levantam-se. E o Mauro também. Vem para o pé de mim.
Então, P.P. estás aí, sozinho, não te misturas com a gente. Como é que é?
Estou fixe.
Não gostas disto aqui?
Gosto.
Isto é que é vida. Surf, bares de pescadores, tás a ver. Vida simples, meu. Tens de saber apreciar estas coisas. E mexilhão, claro. Olha ali. Aponta para as pernas roliças e morenas da surfista mais velha, sufocadas dentro de uns calções de ganga. Afastas as pedras e encontras o mexilhão. Diz lá se há melhor sítio para viver. Não há.
Olho para o mar. Desse lado, escuro, imenso, parece-me haver algo para viver.
P.P. vou andando. É a voz da Margot. Olho. Está de pé.
Vais assim, Margot? Não queres vir lá a minha casa um bocado? Anda lá. Vocês ainda não foram lá.
Não, não vai ser hoje. Vou-me levantar cedo e ainda tenho muito que conduzir até casa.
Vou para me levantar. Ele trava-me.
Eh onde é que tu também vais?
Não quero que a Margot vá sozinha, respondo.
O Mauro, insistente, Margot, queres que te vamos levar para não ires sozinha? Podemos.
Ela parece estar sem paciência. Começa a descer as escadas de madeira.
P.P., tu podes ficar. Eu vou-me pôr a caminho.
Nós levamos-te, continua o Mauro.
Não preciso que ninguém me leve, diz a Margot, já a desaparecer.
O Mauro vira-se para mim. Vês? Ela vai bem sozinha. E agora se não queres estar com esta malta, vais conhecer a minha casa.
Já me meti em demasiadas coisas para me perguntar em que é que me estou a meter. Em vez disso só não entendo como é que me deixo levar pelas marés — como um pedaço de plástico a boiar por ondas, tempestades, baías, leitos.
Entro no Ferrari do Mauro e é como se voltasse ao Jipe preto em que entrei quando era miúdo. Não porque o Mauro fosse abusar de mim. Aliás, toda a gente tem o fetiche de foder com o Mauro, mas ninguém consegue abusar — nem ser abusado — por ele. O gajo parece que assexuou o corpo fantástico e desejável que Deus lhe deu. O que me faz voltar a essa ideia tantas vezes é uma certa passividade em permitir que as coisas me aconteçam. Não sei se porque, de alguma maneira, espero repetir algum acontecimento, ou se porque, pelo contrário, nunca nada aconteceu. E quando estava para acontecer — acontecer em mim — eu quis continuar a viagem.
Ao ver o Mauro a conduzir velozmente pela serra, sem receio do perigo em que nos põe, pergunto-lhe, Seguirias viagem?
IMPARÁVEL (PARTE DOIS)
É enorme a casa. Os cães saltam pelo Mauro acima e cheiram-me até aos ossos, mas ele agarra neles, põe-nos fora no pátio, e fecha a porta da sala. Já não chateiam, diz.
Põe-te à vontade. Queres beber o quê? Tu vê lá não te ponhas a fazer grandes misturas com drogas, eu sei do que falo.
Não mandei/
Não mandaste, não mandaste ainda. Não queres seguir viagem? Então, seguir viagem é seguir viagem. Não há muitos como nós, sabes. Por isso é que eu te trouxe cá. Não penses que vem qualquer pessoa a minha casa. Também já não estávamos a fazer lá nada no bar. Não é que eu não goste daquilo, eu gosto, tem boa onda. Mas isto, quando estamos nós, quando se acerta assim, um gajo tem de seguir, seguir viagem é seguir viagem, não é? Tu percebeste. No carro. Tu percebeste no carro. Por isso é que te viraste para mim e perguntaste. Mas não perguntaste, pois não? Não era bem uma pergunta. Era outra cena. Era retórica. Sabes o que é uma pergunta retórica. Sabes, claro que sabes.
Ouço os cães lá fora. Aproveito para perguntar, E os cães? Levas os cães contigo?
Não. Tenho quem tome conta deles. Olha, vou mudar de roupa. E se vamos partir, não vamos levar muita coisa, senão fica logo tudo muito planeado, perde-se a coisa espontânea, que é a melhor, é onde está o busílis da filosofia, do bicho, do que quer que isto seja – esta coisa que andamos para aqui a fazer. A cena é que ninguém sabe.
Ele entra por uma porta. Fico para ali na sala. Passeio a mirada pelos pertences por cima da lareira. Penso se não deveria ter ido com a Margot. Já deve ter estar em casa. Pego no telemóvel para saber se chegou bem.
Então, o que é que estás a fazer, ouço o Mauro perguntar ao voltar pela mesma porta por onde entrou. Está de cuecas. Exibe os braços. O peito, os abdominais. Músculos das pernas, gémeos. O sexo enroscado no tecido branco elástico. Estás com o telemóvel na mão para quê? Estás a fazer alguma coisa com isso?
Fico atrapalhado. Não, estou só…
Aponta aí para mim, então, diz-me. Se estás com ele na mão, tens de o usar. Isto é como quando és apanhado a bater uma. Mais vale seres digno e vires-te na cara de quem te apanhou. Anda, aponta aí. Então? Tás a cheirar a leitinho.
Eu aponto.
Agora filma.
Eu vou a medo com o dedo nervoso ao ecrã do telemóvel procurar o rec da câmara. Ligo. Começo a filmar.
Tás a filmar?
Tou.
Não me apontes para a cara. Assim, não. Aponta para o corpo. Vê isto como um objecto. É só um corpo. Não é mais do que isso. Não consegues ver nisto só um corpo? Não é o Mauro, não é ninguém. É só carne, carne quente. Olha. Dá cá, chega cá a tua mão. Vê.
Ele pega na minha mão e põe-na na barriga dele. É dura, muito lisa e respira. Desce um pouco. Está rente às cuecas. Vês? É ou não é só um corpo?
É, digo-lhe vencido.
Estás a apontar-me para a cara.
Não está a filmar.
Não quero saber. Desliga isso.
Está desligado.
Não interessa. Não apontes essa merda.
Estás-te a passar?
Ele ri-se. Aponta com o dedo para a minha cara. Só se passa quem estiver deste lado. Tu estás do lado de quem?
Hã?
Estás do lado de quem? Do meu ou do da tua amiga?
Eu agora estou aqui.
Pois estás. E eu olha, sabes que mais? Me cago en Dios. Sabias que essa foi a minha tese? Me cago en Dios. Tive uma ovação de pé.
De mestrado?
Não. Aí é que está. De PAP. Que é muito mais importante, vocês é que não percebem.
Começou-me a parecer que não iriamos sair daquela casa. Vais-te vestir, perguntei.
Vou ainda tomar banho. Curtes ler poesia? Podias ler para mim enquanto eu tomo banho.
Eh pa, Mauro. Mas tu estás numa de ir e seguir viagem ou nem por isso?
P.P., já te disse que sim, não disse?
Disseste, mas agora estás a falar em ler-te poesia, não me parece que te estejas a despachar para irmos.
A despachar? Mas tu estás agora a gozar comigo? A despachar, foi isso que tu disseste?
Isto começava a assustar-me. Olhei para a porta da sala e lembrei-me dos cães que, embora grandes, eram amistosos.
Mas que caralho de viagem é que é essa? Não estamos no mesmo comprimento de onda, como eu pensei, então. Porque o gajo que falou comigo no carro, falou-me em seguir viagem, essa viagem que se segue, essa viagem interior, e que extravassa pela noite fora, pelo dia fora, que vai por aí, que não para nunca, que sabe-se lá para onde vai. É essa viagem ou não é?
É. É essa.
Então, explica-me lá, só para ver se eu estou a perceber, se nós não sabemos onde é que a viagem vai parar, estás com tanta pressa para chegar aonde?
Senti-me francamente estúpido, mas irritado também.
A lado nenhum. Caga nisso.
ME CAGO EN DIOS, grunhe com os braços de Adónis para o tecto alto da enorme sala. Depois baixou-os e no mesme lance desceu as cuecas até aos pés, fazendo balouçar um belíssimo pénis, entoucado por uma pele morena, preso a uma sóbria camada de pêlos firmes no púbis e empurrado pelo movimento pendular dos testículos – que davam talvez a ilusória impressão de estar a ter uma ligeira erecção.
Agora é devias ter estado com a câmara ligada, diz-me. E sai na direcção do duche, mostrando sem medo o mais ternurento e delicioso rabo de que se podia ter tido o deslumbre de ver e perder de vista.
Olhei para as estantes, à procura de um livro de poesia. Onde é que eles estariam? Encontrei um. Fui atrás do som da água a cair da pele dele sobre a louça da base de duche. A porta estava aberta. Não foi preciso bater.
Encontrei um livro.
Lê. Lê um poema. Mas lê alto para eu ouvir.
Sentei-me no tampo da sanita. Abri o livro. Olhei para ele a ensaboar-se, a espuma a cavalgar-lhe pela pele luminosa. Voltei ao livro. Disse alto para que me ouvisse, Ânsia de amar Oh ânsia de viver uma hora só que seja, mas vivida e satisfeita… e pode-se morrer, porque se morre abençoando a vida! Ele lava o pénis com a mão, apertando-o. Sabe que os meus olhos espreitam.
Mas essa hora suprema em que se vive quanto possa sonhar-se de ventura, oh vida mentirosa, oh vida impura, esperei-a, esperei-a, e nunca a tive! E quantos como eu a desejaram, e quantos como eu nunca a tiveram, uma hora de amor como a sonharam! Ele agacha-se, de cócoras. Passa as mãos pelas coxas, abraça as pernas. Eu continuo, Em quantos olhos tristes tenho eu lido
o desespero dos que não viveram esse sonho de amor incompreendido.
A água cai-lhe na nuca. Mauro? Estás bem?
Ele chora. Fecho a torneira do duche. Deito a toalha sobre as costas dele. Envolvo-o.
Sabes o que é que me custa, P.P.? É que os que dizem que sabem quem eu sou, os que acham que me conhecem, vivem a vida mentirosa. A vida mentirosa, repara no que diz o poeta. A vida mentirosa, e vivem a vida mentirosa a dizerem aos outros como é que devem viver a sua vida. Eu não confio em ninguém P.P., eu sei como é que me olham. Eu vejo o fingimento.
Ninguém te olha de maneira nenhuma.
Não mintas, também tu. Tu não és assim. Não comeces a ser agora. Eu sei, P.P.. As pessoas ferem com o olhar. E não é sem querer. Só não ferem mais porque não podem. Achas que eu não sei? Essa tua amiga Margot é uma delas?
A Margot?
Sim, essa. Achas que eu não sinto. Deve estar zangada por achar que eu não a acho mulher o suficiente.
É o que tu achas?
Levanta-se. O pénis, agora lavado, fica à altura da minha cabeça. Disfarço. Tento olhar para cima, para ele.
Dessa tua amiga Margot até acho. Se fosse mulher o suficiente não precisava de me olhar assim.
E diz uma mulher que seja que aches que não te olhe assim.
Tu.
Eu não sou mulher.
Isso eu não sei. Estou aqui com o meu pirilau à mostra e não vi o teu. Deixa lá ver.
Diz isto e lança-se a desapertar-me as calças.
Está quieto, pá. Afasto-o.
Ele continua. Agora mostras. Quero ver se não me estás aí a enganar e se não és uma gaja disfarçada. Se fores, vou-te arrancar esse mexilhão à dentada. Vais ver.
Isso eu gostava de ver.
Ai gostavas?
O Mauro lança-se a mim como o pulo de um animal em ataque e prende-me de costas contra o chão. Eu esperneio.
Estás forte? Para quem cheira a leitinho? Ele senta-se nas minhas costas, nu, com os joelhos um para cada lado da minha cabeça. Tento virar-me enquanto ele me baixa as calças com as cuecas junto.
Pá, está quieto.
Vamos lá ver o que é que temos aqui.
Consigo voltar-me de frente e aquele pénis perfeito está agora praticamente a bater-me na cara. Tento empurra-lo mas ele é forte. Sinto a mão dele agarrar-me no meu pénis e apertá-lo.
Temos vergalho. Deixa lá ver se não é falso. E aqui, são tomates a sério? Parece que sim. Estás livre, passas-te no exame do Mauro ginecologista. Dito isto, solta-me.
Tu és muita passado, pá.
E tu és muito homem. Isso é que é pena. Até nos encaixamos bem. E curto ouvir-te a ler poesia. Quase me dás tusa.
Pois mais vale contentares-te porque não tou é a ver nenhuma mulher que te vá aguentar, Mauro.
Já te disse que nem todas as mulheres são como a tua amiga, Margot. E que nem a acho assim tão mulher. Ela é que se deve achar mais mulher que as outras. Mas olha que há uma mulher, e essa sim é mulher, mulher mesmo, dessas com mexilhão no meio das pedras, que é cá da nossa irmandade. E tu conheces.
Aperto o cinto. Quem, pergunto.
Uma meio francesa.
Aguardo que ele me diga.
Tu sabes quem é.
A Sophie, arrisco.
Eu disse-te que tu sabias.
Essa sim, foi das tais que pôde vir cá a casa.
Tive um laivo de ciúme. A Sophie ali, com ele.
Ela, tu, eu, somos a irmandade da viagem.
A viagem que não começou, pergunto-lhe, irritado com tudo.
Mas nada o parece afectar. Diz-me, satisfeito, A viagem que começou. E que nunca vai parar.
IMPARÁVEL (PARTE TRÊS)
Então, cheguei lá a casa e não tinha bateria no telefone e fiquei um bocadinho estressada, porque estava no meio do nada e o Mauro estava ao telefone com uma pessoa dali das redondezas, muito fã, um rapaz muito fã dele que estava muito contente por estar a falar com ele ao telefone. E nisso estiveram uns bons 40 minutos, uma hora.
E, no entretanto, eu fazia-lhe sinais se ele podia dar-me o contacto de algum amigo meu. Porque eu, entretanto, tinha conseguido recuperar o… Eu tinha, olha, eu esqueci-me do PIN, eu fiquei sem bateria, depois consegui ligar, mas depois não tinha o PIN, então tive de ligar, olha, uma confusão. Ele enervou-se muito por eu estar stressada com o telefone e começou… Levantou-se, já estava em tronco nu, grande, forte para caralho, a sala, a porta dá diretamente para a rua, para a serra, tem um pátio com os cães e a serra depois.
E estávamos ali naquela sala, só a porta, não havia nenhuma divisão a impedir-me de sair, mas ele disse-me que não merecia o que lhe estava a acontecer, que cheguei a casa e que não tinha feito…
Não tinha tratado bem dele.
Isso foi muito estranho porque até ali, até entramos na casa dele, estávamos num lugar…. de…
Estávamos a seduzir e, de repente, ele passou para um papel de…
Como se houvesse ali coisas adquiridas e eu tivesse uma postura específica que tivesse de ter, uma gratidão para com ele como o rapaz do telefone que também queria ser cantor. E disse-lhe que estava… Que estava nervosa, que não me estava a sentir bem, e que queria ir embora.
E ele disse-me, Não, não, não vais embora. Não vais embora agora.
E disse-lhe, Mas tu disseste-me qualquer coisa para eu te dizer, e que tu me chamavas um carro para eu voltar para casa.
Ele disse-me, Não, não, eu não vou fazer isso, porque eu não mereço isso.
Não vieste até aqui, para agora.
Eu ficar sozinho o resto da noite.
E, pronto, começámos a discutir.
Não sei, pronto.
E, de repente, eu sinto uma coisa a passar-me, assim, a rentar a cabeça e o barulho
zás!!!
trumm!
Pronto, era a lareira, o vidro da lareira a partir, com o objeto que ele atirou na direcção da minha cabeça, e que me passou à razia.
Eu tinha bloqueado o meu telemóvel, enganei-me 3 vezes no pin.
Eu, na altura, lembro-me que cheguei até a sair da situação e vi-me de fora.
E vi-nos de fora, porque ele estava a dizer coisas tão clichê.
Ele disse assim, tu estás a ver?
Ele estava completamente descontrolado, parece que os músculos dele tinham crescido.
Ele era enorme.
E eu disse, eu vou-me embora.
E ele disse, vais vais, para o meio da serra.
Eu disse, vou, não quero saber.
Vou, vou para o meio da serra, hei-de encontrar alguém.
São quatro da manhã, não há ninguém.
Não faz mal, eu vou.
Não, a minha porta ninguém abre.
Quem abre a porta da minha casa sou eu.
E isto, eu estava a tentar avançar em direção à porta e foi tão ameaçador a forma como ele disse isto, que eu percebi imediatamente que se eu tentasse abrir a porta, eu não conseguia.
Ele vinha atrás de mim agarrava-me e tapava a boca, ou o que fosse, e eu estava… Não havia vida lá fora. Só noite e os caes, três ou quatro, ali à porta.
Pronto. Então eu percebi que eu não podia abrir a porta, não é?
Portanto, estava trancada.
Pensei, este gajo está maluco, está-se a tornar agressivo. Tive medo, ele é forte, a serra é muda. Eu vou tomar calmantes e durmo até de manhã e até ser possível ir embora daqui, pensei.
E então pedi-lhe, Ah pá, estou muito ansiosa, arranjas um calmante?
Disse que não me ia dar. Porque podia-me acontecer alguma coisa e ele não se queria responsabilizar.
Então eu percebi que tinha que estar acordada e estar com ele. Como ele queira.
Se não podia dormir e dessa forma fugir ao confronto, e não saber o que ia acontecer e não reagir e não provocar… Então eu ia ter que estar muito alerta.
Bom, então acho que foi rapidamente que percebi que tinha que manipulá-lo.
E foi assim que eu estive desde esta madrugada até que às quatro da tarde do dia a seguir, ele estava fazer a mala, tinha um concerto em Vigo.
Quando ligou a editora dele a dizer, Como é que tu não estás ainda a sair para Vigo, Mauro?
Como é possível?
Tiveram discussão sobre as expectativas dela para com ele. Ela lembra-se de certeza dessa conversa.
‘Toda uma equipa à tua espera!’
Sendo que ele era suposto estar a chegar a Vigo por volta das cinco da tarde.
E às quatro ainda estavam a ter esta conversa. Serra da Freita.
Eu estive muitas horas ali. Doze?
Então, começo a recordar-me, foda-se. Partiu a lareira! Não estou a tratá-lo como ele merece. Ele queria um abraço.
Depois disto, começou a parecer uma criança. De repente, aqueles músculos gigantes a crescer passaram para uma expressão de bebé.
Eu não queria estar zangado, dizia ele. Não me queria zangar contigo. Vamos fazer as pazes. Vá lá. Dá-me um abraço. Consegues fazer isso?
Pedinchava a choramingar.
Acho que na verdade foi aí só que eu percebi que eu tinha que entrar no jogo.
Aquilo era tudo demasiado absurdo. Nada fazia sentido. E pronto. Foi assim que eu estive a ouvi-lo a ler poesia. Durante uma espera pelo amanhecer.
E, na verdade… Além da poesia… poesia, poesia. Ele fez uma performance para mim.
Um escritor argentino. No quiero el mundo de mierda para nada. Ele fez uma sessão privada do trabalho final do curso dele. Foi a PAP, o trabalho final.
Ele disse-me várias vezes nessa noite
que tinha sido… unânima uma ovação de pé. E… Ele estava completamente maníaco a contar como ele estava a dizer aquelas merdas,
aquelas asneiras todas que não quer o mundo de merda, e que essas pessoas todas se levantaram e disseram ali que ele era o melhor.
Perguntava-me. Quem é melhor que eu? Dá-me um exemplo.
Eu estava sentada no sofá. Na tal sala com os cães à porta. E ele estava à minha frente. Toda a noite, P.P., a contar-me histórias de… de centores e…
E diz-me? Quem? O Tomás Wallenstein? Dá-me um exemplo.
Alguma horas depois veio-se para cima de mim. Eu tinha tesão, no meio daquele medo todo.
Vestidas as cuecas rosa choque, grandes, como ele gosta, as cuecas que me comprou nessa tarde específicamente para estimular uma fantasia específica que tinha.
O pau não chegou a ficar duro.
Estávamos quase a sair atrasados para a viagem dele onde ainda me tentaria levar antes de me deixar na auto estrada a implorar-me que fosse com ele.
Só via a saída a ficar para tras.
Foda-se. Eu tenho de ir. Tenho de sair aqui.