eu apanho telas de quadros
aquelas telas com impressão de fotos repetidas à exaustão do nosso dia a dia
as fotos que nos impingiam um mundo de sucesso poder e luxúria
preenchem o nosso sonho acordado, de uma vida sem a dura da labuta
new york, singapura, dubai, paris
aquela vista magnificente, manchada de glamour, vertendo o verdadeiro saber estar na vida.
aquela vista deslumbrante com o empire state building;
ou telas que jazem descartadas, com imagens meias apagadas;
eu, andarilha como sou, apanho-as todas e acumulo-as e, de poucochinha vez a cada vez, pinto sobre aquele print meio apodrilhado com humidade.
pinto com a velocidade das cores ao som do batuque do meu coração.
pinto, rasgo, colo, carrego, pincelo, verto-me sobre a tela.
pinto até não doer mais, para nunca mais.
meses, anos depois, irei pendura-las na ruas que nossa casa se trata.
vão acabar nos lixos, seguindo o seu destino planeado.
tudo é descartável.
tudo é efémero e definhamos várias vezes.
morremos e, nao sei bem como, sobrevivemos. Sobrevoamos com as nossas asas de passarinho e olhamos para as nossas vidas como um espectador.
enganamo-nos tantas vezes que fingimos não saber que nos enganamos.
somos descartadas, anulamo-nos, destruímos o espelho.
curamos, healing healing, com aquele desfragmento. sobrevivo porque sou, somos várias.
You’re not syncing to time — you’re dissolving into it.
BE SUBVERSION