{"id":2136,"date":"2025-10-08T21:27:00","date_gmt":"2025-10-09T03:27:00","guid":{"rendered":"http:\/\/variasvadias.com\/?p=2136"},"modified":"2025-10-08T21:27:00","modified_gmt":"2025-10-09T03:27:00","slug":"imparavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/variasvadias.com\/?p=2136","title":{"rendered":"IMPAR\u00c1VEL"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O PROSTITUTO PORTUGU\u00caS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">IMPAR\u00c1VEL (PARTE UM)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A surfista aponta com um dos dois finos que traz na m\u00e3o, em copos de pl\u00e1stico, na minha direc\u00e7\u00e3o. Logo recua o gesto para si mesma, cantarola um N\u00e3 n\u00e3 n\u00e3, e estica a boca para me sorrir. Aquela maneira que as gajas adultas faziam quando eu ainda era menor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fico confuso. Num instante apenas, achei que era menor outra vez. Mas j\u00e1 n\u00e3o sou. Olhando bem, ela \u00e9 mais velha do que eu julguei que fosse. Deve ser por isso que me olha assim. Sigo-a com o olhar, est\u00e1 a levar a cerveja ao Mauro. Ele nem olha. Continua a tocar guitarra com a Adelaide, a dona do bar de praia, e com o Espinhas, filho dela. A Margot fuma para cima da cena, o que ajuda ao tom. A luz de um projector pendurado numa haste de madeira trespassa o fumo. Vejo como se serpentea pelos convivas, que cobrem com \u00e2nimo o marulhar nocturno de um oceano descansado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 dessa bela cena que contemplo do meu canto, mais afastado, que dispara como uma flecha em arco, a provoca\u00e7\u00e3o do Mauro. Cheiras a leitinho \u00f3 P.P.. Rio-me. E sem querer, troco um olhar com a Margot \u2014 o que me faz sentir que afinal n\u00e3o me estava a rir. N\u00e3o como me rio quando estamos s\u00f3 os dois, no sof\u00e1 desengan\u00e7ado de casa dela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mantive-me afastado. O Espinhas tem agora a guitarra, e a Adelaide empoleira-se para dar voz \u00e0 ocasi\u00e3o. Os \u00e2nimos levantam-se. E o Mauro tamb\u00e9m. Vem para o p\u00e9 de mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, P.P. est\u00e1s a\u00ed, sozinho, n\u00e3o te misturas com a gente. Como \u00e9 que \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estou fixe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o gostas disto aqui?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gosto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto \u00e9 que \u00e9 vida. Surf, bares de pescadores, t\u00e1s a ver. Vida simples, meu. Tens de saber apreciar estas coisas. E mexilh\u00e3o, claro. Olha ali. Aponta para as pernas roli\u00e7as e morenas da surfista mais velha, sufocadas dentro de uns cal\u00e7\u00f5es de ganga. Afastas as pedras e encontras o mexilh\u00e3o. Diz l\u00e1 se h\u00e1 melhor s\u00edtio para viver. N\u00e3o h\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olho para o mar. Desse lado, escuro, imenso, parece-me haver algo para viver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P.P. vou andando. \u00c9 a voz da Margot. Olho. Est\u00e1 de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vais assim, Margot? N\u00e3o queres vir l\u00e1 a minha casa um bocado? Anda l\u00e1. Voc\u00eas ainda n\u00e3o foram l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o, n\u00e3o vai ser hoje. Vou-me levantar cedo e ainda tenho muito que conduzir at\u00e9 casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vou para me levantar. Ele trava-me.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eh onde \u00e9 que tu tamb\u00e9m vais?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o quero que a Margot v\u00e1 sozinha, respondo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Mauro, insistente, Margot, queres que te vamos levar para n\u00e3o ires sozinha? Podemos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela parece estar sem paci\u00eancia. Come\u00e7a a descer as escadas de madeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P.P., tu podes ficar. Eu vou-me p\u00f4r a caminho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s levamos-te, continua o Mauro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o preciso que ningu\u00e9m me leve, diz a Margot, j\u00e1 a desaparecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Mauro vira-se para mim. V\u00eas? Ela vai bem sozinha. E agora se n\u00e3o queres estar com esta malta, vais conhecer a minha casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 me meti em demasiadas coisas para me perguntar em que \u00e9 que me estou a meter.&nbsp; Em vez disso s\u00f3 n\u00e3o entendo como \u00e9 que me deixo levar pelas mar\u00e9s \u2014 como um peda\u00e7o de pl\u00e1stico a boiar por ondas, tempestades, ba\u00edas, leitos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entro no Ferrari do Mauro e \u00e9 como se voltasse ao Jipe preto em que entrei quando era mi\u00fado. N\u00e3o porque o Mauro fosse abusar de mim. Ali\u00e1s, toda a gente tem o fetiche de foder com o Mauro, mas ningu\u00e9m consegue abusar \u2014 nem ser abusado \u2014 por ele. O gajo parece que assexuou o corpo fant\u00e1stico e desej\u00e1vel que Deus lhe deu. O que me faz voltar a essa ideia tantas vezes \u00e9 uma certa passividade em permitir que as coisas me aconte\u00e7am. N\u00e3o sei se porque, de alguma maneira, espero repetir algum acontecimento, ou se porque, pelo contr\u00e1rio, nunca nada aconteceu. E quando estava para acontecer \u2014 acontecer em mim \u2014 eu quis continuar a viagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao ver o Mauro a conduzir velozmente pela serra, sem receio do perigo em que nos p\u00f5e, pergunto-lhe, Seguirias viagem?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">IMPAR\u00c1VEL (PARTE DOIS)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 enorme a casa. Os c\u00e3es saltam pelo Mauro acima e cheiram-me at\u00e9 aos ossos, mas ele agarra neles, p\u00f5e-nos fora no p\u00e1tio, e fecha a porta da sala. J\u00e1 n\u00e3o chateiam, diz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P\u00f5e-te \u00e0 vontade. Queres beber o qu\u00ea? Tu v\u00ea l\u00e1 n\u00e3o te ponhas a fazer grandes misturas com drogas, eu sei do que falo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o mandei\/<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o mandaste, n\u00e3o mandaste ainda. N\u00e3o queres seguir viagem? Ent\u00e3o, seguir viagem \u00e9 seguir viagem. N\u00e3o h\u00e1 muitos como n\u00f3s, sabes. Por isso \u00e9 que eu te trouxe c\u00e1. N\u00e3o penses que vem qualquer pessoa a minha casa. Tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1vamos a fazer l\u00e1 nada no bar. N\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o goste daquilo, eu gosto, tem boa onda. Mas isto, quando estamos n\u00f3s, quando se acerta assim, um gajo tem de seguir, seguir viagem \u00e9 seguir viagem, n\u00e3o \u00e9? Tu percebeste. No carro. Tu percebeste no carro. Por isso \u00e9 que te viraste para mim e perguntaste. Mas n\u00e3o perguntaste, pois n\u00e3o? N\u00e3o era bem uma pergunta. Era outra cena. Era ret\u00f3rica. Sabes o que \u00e9 uma pergunta ret\u00f3rica. Sabes, claro que sabes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou\u00e7o os c\u00e3es l\u00e1 fora. Aproveito para perguntar, E os c\u00e3es? Levas os c\u00e3es contigo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o. Tenho quem tome conta deles. Olha, vou mudar de roupa. E se vamos partir, n\u00e3o vamos levar muita coisa, sen\u00e3o fica logo tudo muito planeado, perde-se a coisa espont\u00e2nea, que \u00e9 a melhor, \u00e9 onde est\u00e1 o bus\u00edlis da filosofia, do bicho, do que quer que isto seja \u2013 esta coisa que andamos para aqui a fazer. A cena \u00e9 que ningu\u00e9m sabe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele entra por uma porta. Fico para ali na sala. Passeio a mirada pelos pertences por cima da lareira. Penso se n\u00e3o deveria ter ido com a Margot. J\u00e1 deve ter estar em casa. Pego no telem\u00f3vel para saber se chegou bem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, o que \u00e9 que est\u00e1s a fazer, ou\u00e7o o Mauro perguntar ao voltar pela mesma porta por onde entrou. Est\u00e1 de cuecas. Exibe os bra\u00e7os. O peito, os abdominais. M\u00fasculos das pernas, g\u00e9meos. O sexo enroscado no tecido branco el\u00e1stico. Est\u00e1s com o telem\u00f3vel na m\u00e3o para qu\u00ea? Est\u00e1s a fazer alguma coisa com isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fico atrapalhado. N\u00e3o, estou s\u00f3\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aponta a\u00ed para mim, ent\u00e3o, diz-me. Se est\u00e1s com ele na m\u00e3o, tens de o usar. Isto \u00e9 como quando \u00e9s apanhado a bater uma. Mais vale seres digno e vires-te na cara de quem te apanhou. Anda, aponta a\u00ed. Ent\u00e3o? T\u00e1s a cheirar a leitinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu aponto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora filma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu vou a medo com o dedo nervoso ao ecr\u00e3 do telem\u00f3vel procurar o rec da c\u00e2mara. Ligo. Come\u00e7o a filmar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">T\u00e1s a filmar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o me apontes para a cara. Assim, n\u00e3o. Aponta para o corpo. V\u00ea isto como um objecto. \u00c9 s\u00f3 um corpo. N\u00e3o \u00e9 mais do que isso. N\u00e3o consegues ver nisto s\u00f3 um corpo? N\u00e3o \u00e9 o Mauro, n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m. \u00c9 s\u00f3 carne, carne quente. Olha. D\u00e1 c\u00e1, chega c\u00e1 a tua m\u00e3o. V\u00ea.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele pega na minha m\u00e3o e p\u00f5e-na na barriga dele. \u00c9 dura, muito lisa e respira. Desce um pouco. Est\u00e1 rente \u00e0s cuecas. V\u00eas? \u00c9 ou n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um corpo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9, digo-lhe vencido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1s a apontar-me para a cara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o est\u00e1 a filmar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o quero saber. Desliga isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1 desligado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o interessa. N\u00e3o apontes essa merda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1s-te a passar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele ri-se. Aponta com o dedo para a minha cara. S\u00f3 se passa quem estiver deste lado. Tu est\u00e1s do lado de quem?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e3?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1s do lado de quem? Do meu ou do da tua amiga?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu agora estou aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois est\u00e1s. E eu olha, sabes que mais? Me cago en Dios. Sabias que essa foi a minha tese? Me cago en Dios. Tive uma ova\u00e7\u00e3o de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De mestrado?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o. A\u00ed \u00e9 que est\u00e1. De PAP. Que \u00e9 muito mais importante, voc\u00eas \u00e9 que n\u00e3o percebem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Come\u00e7ou-me a parecer que n\u00e3o iriamos sair daquela casa. Vais-te vestir, perguntei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vou ainda tomar banho. Curtes ler poesia? Podias ler para mim enquanto eu tomo banho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eh pa, Mauro. Mas tu est\u00e1s numa de ir e seguir viagem ou nem por isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P.P., j\u00e1 te disse que sim, n\u00e3o disse?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Disseste, mas agora est\u00e1s a falar em ler-te poesia, n\u00e3o me parece que te estejas a despachar para irmos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A despachar? Mas tu est\u00e1s agora a gozar comigo? A despachar, foi isso que tu disseste?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto come\u00e7ava a assustar-me. Olhei para a porta da sala e lembrei-me dos c\u00e3es que, embora grandes, eram amistosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas que caralho de viagem \u00e9 que \u00e9 essa? N\u00e3o estamos no mesmo comprimento de onda, como eu pensei, ent\u00e3o. Porque o gajo que falou comigo no carro, falou-me em seguir viagem, essa viagem que se segue, essa viagem interior, e que extravassa pela noite fora, pelo dia fora, que vai por a\u00ed, que n\u00e3o para nunca, que sabe-se l\u00e1 para onde vai. \u00c9 essa viagem ou n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9. \u00c9 essa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, explica-me l\u00e1, s\u00f3 para ver se eu estou a perceber, se n\u00f3s n\u00e3o sabemos onde \u00e9 que a viagem vai parar, est\u00e1s com tanta pressa para chegar aonde?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Senti-me francamente est\u00fapido, mas irritado tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A lado nenhum. Caga nisso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ME CAGO EN DIOS, grunhe com os bra\u00e7os de Ad\u00f3nis para o tecto alto da enorme sala. Depois baixou-os e no mesme lance desceu as cuecas at\u00e9 aos p\u00e9s, fazendo balou\u00e7ar um bel\u00edssimo p\u00e9nis, entoucado por uma pele morena, preso a uma s\u00f3bria camada de p\u00ealos firmes no p\u00fabis e empurrado pelo movimento pendular dos test\u00edculos \u2013 que davam talvez a ilus\u00f3ria impress\u00e3o de estar a ter uma ligeira erec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora \u00e9 devias ter estado com a c\u00e2mara ligada, diz-me. E sai na direc\u00e7\u00e3o do duche, mostrando sem medo o mais ternurento e delicioso rabo de que se podia ter tido o deslumbre de ver e perder de vista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olhei para as estantes, \u00e0 procura de um livro de poesia. Onde \u00e9 que eles estariam? Encontrei um. Fui atr\u00e1s do som da \u00e1gua a cair da pele dele sobre a lou\u00e7a da base de duche. A porta estava aberta. N\u00e3o foi preciso bater.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Encontrei um livro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00ea. L\u00ea um poema. Mas l\u00ea alto para eu ouvir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sentei-me no tampo da sanita. Abri o livro. Olhei para ele a ensaboar-se, a espuma a cavalgar-lhe pela pele luminosa. Voltei ao livro. Disse alto para que me ouvisse,&nbsp;<em>\u00c2nsia de amar Oh \u00e2nsia de viver uma hora s\u00f3 que seja, mas vivida e satisfeita\u2026 e pode-se morrer, porque se morre aben\u00e7oando a vida!<\/em>&nbsp;Ele lava o p\u00e9nis com a m\u00e3o, apertando-o. Sabe que os meus olhos espreitam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Mas essa hora suprema em que se vive quanto possa sonhar-se de ventura, oh vida mentirosa, oh vida impura, esperei-a, esperei-a, e nunca a tive!&nbsp; E quantos como eu a desejaram, e quantos como eu nunca a tiveram, uma hora de amor como a sonharam!<\/em>&nbsp;Ele agacha-se, de c\u00f3coras. Passa as m\u00e3os pelas coxas, abra\u00e7a as pernas. Eu continuo,&nbsp;<em>Em quantos olhos tristes tenho eu lido<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>o desespero dos que n\u00e3o viveram esse sonho de amor incompreendido.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00e1gua cai-lhe na nuca. Mauro? Est\u00e1s bem?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele chora. Fecho a torneira do duche. Deito a toalha sobre as costas dele. Envolvo-o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabes o que \u00e9 que me custa, P.P.? \u00c9 que os que dizem que sabem quem eu sou, os que acham que me conhecem, vivem a vida mentirosa. A vida mentirosa, repara no que diz o poeta. A vida mentirosa, e vivem a vida mentirosa a dizerem aos outros como \u00e9 que devem viver a sua vida. Eu n\u00e3o confio em ningu\u00e9m P.P., eu sei como \u00e9 que me olham. Eu vejo o fingimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ningu\u00e9m te olha de maneira nenhuma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o mintas, tamb\u00e9m tu. Tu n\u00e3o \u00e9s assim. N\u00e3o comeces a ser agora. Eu sei, P.P.. As pessoas ferem com o olhar. E n\u00e3o \u00e9 sem querer. S\u00f3 n\u00e3o ferem mais porque n\u00e3o podem. Achas que eu n\u00e3o sei? Essa tua amiga Margot \u00e9 uma delas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Margot?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, essa. Achas que eu n\u00e3o sinto. Deve estar zangada por achar que eu n\u00e3o a acho mulher o suficiente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 o que tu achas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levanta-se. O p\u00e9nis, agora lavado, fica \u00e0 altura da minha cabe\u00e7a. Disfar\u00e7o. Tento olhar para cima, para ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dessa tua amiga Margot at\u00e9 acho. Se fosse mulher o suficiente n\u00e3o precisava de me olhar assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E diz uma mulher que seja que aches que n\u00e3o te olhe assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o sou mulher.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso eu n\u00e3o sei. Estou aqui com o meu pirilau \u00e0 mostra e n\u00e3o vi o teu. Deixa l\u00e1 ver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diz isto e lan\u00e7a-se a desapertar-me as cal\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1 quieto, p\u00e1. Afasto-o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele continua. Agora mostras. Quero ver se n\u00e3o me est\u00e1s a\u00ed a enganar e se n\u00e3o \u00e9s uma gaja disfar\u00e7ada. Se fores, vou-te arrancar esse mexilh\u00e3o \u00e0 dentada. Vais ver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso eu gostava de ver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ai gostavas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Mauro lan\u00e7a-se a mim como o pulo de um animal em ataque e prende-me de costas contra o ch\u00e3o. Eu esperneio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1s forte? Para quem cheira a leitinho? Ele senta-se nas minhas costas, nu, com os joelhos um para cada lado da minha cabe\u00e7a. Tento virar-me enquanto ele me baixa as cal\u00e7as com as cuecas junto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P\u00e1, est\u00e1 quieto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vamos l\u00e1 ver o que \u00e9 que temos aqui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Consigo voltar-me de frente e aquele p\u00e9nis perfeito est\u00e1 agora praticamente a bater-me na cara. Tento empurra-lo mas ele \u00e9 forte. Sinto a m\u00e3o dele agarrar-me no meu p\u00e9nis e apert\u00e1-lo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Temos vergalho. Deixa l\u00e1 ver se n\u00e3o \u00e9 falso. E aqui, s\u00e3o tomates a s\u00e9rio? Parece que sim. Est\u00e1s livre, passas-te no exame do Mauro ginecologista. Dito isto, solta-me.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tu \u00e9s muita passado, p\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E tu \u00e9s muito homem. Isso \u00e9 que \u00e9 pena. At\u00e9 nos encaixamos bem. E curto ouvir-te a ler poesia. Quase me d\u00e1s tusa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois mais vale contentares-te porque n\u00e3o tou \u00e9 a ver nenhuma mulher que te v\u00e1 aguentar, Mauro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 te disse que nem todas as mulheres s\u00e3o como a tua amiga, Margot. E que nem a acho assim t\u00e3o mulher. Ela \u00e9 que se deve achar mais mulher que as outras. Mas olha que h\u00e1 uma mulher, e essa sim \u00e9 mulher, mulher mesmo, dessas com mexilh\u00e3o no meio das pedras, que \u00e9 c\u00e1 da nossa irmandade. E tu conheces.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aperto o cinto. Quem, pergunto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma meio francesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aguardo que ele me diga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tu sabes quem \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Sophie, arrisco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu disse-te que tu sabias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa sim, foi das tais que p\u00f4de vir c\u00e1 a casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tive um laivo de ci\u00fame. A Sophie ali, com ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela, tu, eu, somos a irmandade da viagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A viagem que n\u00e3o come\u00e7ou, pergunto-lhe, irritado com tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas nada o parece afectar. Diz-me, satisfeito, A viagem que come\u00e7ou. E que nunca vai parar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">IMPAR\u00c1VEL (PARTE TR\u00caS)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, cheguei l\u00e1 a casa e n\u00e3o tinha bateria no telefone e fiquei um bocadinho estressada, porque estava no meio do nada e o Mauro estava ao telefone com uma pessoa dali das redondezas, muito f\u00e3, um rapaz muito f\u00e3 dele que estava muito contente por estar a falar com ele ao telefone. E nisso estiveram uns bons 40 minutos, uma hora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, no entretanto, eu fazia-lhe sinais se ele podia dar-me o contacto de algum amigo meu. Porque eu, entretanto, tinha conseguido recuperar o\u2026 Eu tinha, olha, eu esqueci-me do PIN, eu fiquei sem bateria, depois consegui ligar, mas depois n\u00e3o tinha o PIN, ent\u00e3o tive de ligar, olha, uma confus\u00e3o. Ele enervou-se muito por eu estar stressada com o telefone e come\u00e7ou\u2026 Levantou-se, j\u00e1 estava em tronco nu, grande, forte para caralho, a sala, a porta d\u00e1 diretamente para a rua, para a serra, tem um p\u00e1tio com os c\u00e3es e a serra depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E est\u00e1vamos ali naquela sala, s\u00f3 a porta, n\u00e3o havia nenhuma divis\u00e3o a impedir-me de sair, mas ele disse-me que n\u00e3o merecia o que lhe estava a acontecer, que cheguei a casa e que n\u00e3o tinha feito&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o tinha tratado bem dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso foi muito estranho porque at\u00e9 ali, at\u00e9 entramos na casa dele, est\u00e1vamos num lugar\u2026. de\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1vamos a seduzir e, de repente, ele passou para um papel de&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como se houvesse ali coisas adquiridas e eu tivesse uma postura espec\u00edfica que tivesse de ter, uma gratid\u00e3o para com ele como o rapaz do telefone que tamb\u00e9m queria ser cantor. E disse-lhe que estava\u2026 Que estava nervosa, que n\u00e3o me estava a sentir bem, e que queria ir embora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ele disse-me, N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o vais embora. N\u00e3o vais embora agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E disse-lhe, Mas tu disseste-me qualquer coisa para eu te dizer, e que tu me chamavas um carro para eu voltar para casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele disse-me, N\u00e3o, n\u00e3o, eu n\u00e3o vou fazer isso, porque eu n\u00e3o mere\u00e7o isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o vieste at\u00e9 aqui, para agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu ficar sozinho o resto da noite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, pronto, come\u00e7\u00e1mos a discutir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o sei, pronto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, de repente, eu sinto uma coisa a passar-me, assim, a rentar a cabe\u00e7a e o barulho<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;z\u00e1s!!!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;trumm!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pronto, era a lareira, o vidro da lareira a partir, com o objeto que ele atirou na direc\u00e7\u00e3o da minha cabe\u00e7a, e que me passou \u00e0 razia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu tinha bloqueado o meu telem\u00f3vel,&nbsp; enganei-me 3 vezes no pin.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu, na altura, lembro-me que cheguei at\u00e9 a sair da situa\u00e7\u00e3o e vi-me de fora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E vi-nos de fora, porque ele estava a dizer coisas t\u00e3o clich\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele disse assim, tu est\u00e1s a ver?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele estava completamente descontrolado, parece que os m\u00fasculos dele tinham crescido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele era enorme.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E eu disse, eu vou-me embora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ele disse, vais vais,&nbsp; para o meio da serra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu disse, vou, n\u00e3o quero saber.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vou, vou para o meio da serra, hei-de encontrar algu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o quatro da manh\u00e3, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o faz mal, eu vou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o, a minha porta ningu\u00e9m abre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem abre a porta da minha casa sou eu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E isto, eu estava a tentar avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta e foi t\u00e3o amea\u00e7ador a forma como ele disse isto, que eu percebi imediatamente que se eu tentasse abrir a porta, eu n\u00e3o conseguia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele vinha atr\u00e1s de mim agarrava-me e tapava a boca, ou o que fosse, e eu estava\u2026 N\u00e3o havia vida l\u00e1 fora. S\u00f3 noite e os caes, tr\u00eas ou quatro, ali \u00e0 porta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pronto. Ent\u00e3o eu percebi que eu n\u00e3o podia abrir a porta, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, estava trancada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensei, este gajo est\u00e1 maluco, est\u00e1-se a tornar agressivo. Tive medo, ele \u00e9 forte, a serra \u00e9 muda. Eu vou tomar calmantes e durmo at\u00e9 de manh\u00e3 e at\u00e9 ser poss\u00edvel ir embora daqui, pensei.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ent\u00e3o pedi-lhe, Ah p\u00e1, estou muito ansiosa, arranjas um calmante?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Disse que n\u00e3o me ia dar. Porque podia-me acontecer alguma coisa e ele n\u00e3o se queria responsabilizar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o eu percebi que tinha que estar acordada e estar com ele. Como ele queira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se n\u00e3o podia dormir e dessa forma fugir ao confronto, e n\u00e3o saber o que ia acontecer e n\u00e3o reagir e n\u00e3o provocar\u2026 Ent\u00e3o eu ia ter que estar muito alerta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bom, ent\u00e3o acho que foi rapidamente que percebi que tinha que manipul\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E foi assim que eu estive desde esta madrugada at\u00e9 que \u00e0s quatro da tarde do dia a seguir, ele estava&nbsp; fazer a mala, tinha um concerto em Vigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando ligou a editora dele a dizer, Como \u00e9 que tu n\u00e3o est\u00e1s ainda a sair para Vigo, Mauro?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como \u00e9 poss\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tiveram discuss\u00e3o sobre as expectativas dela para com ele. Ela lembra-se de certeza dessa conversa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8216;Toda uma equipa \u00e0 tua espera!&#8217;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sendo que ele era suposto estar a chegar a Vigo por volta das cinco da tarde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e0s quatro ainda estavam a ter esta conversa. Serra da Freita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu estive muitas horas ali. Doze?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, come\u00e7o a recordar-me, foda-se. Partiu a lareira! N\u00e3o estou a trat\u00e1-lo como ele merece. Ele queria um abra\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois disto, come\u00e7ou a parecer uma crian\u00e7a. De repente, aqueles m\u00fasculos gigantes a crescer passaram para uma express\u00e3o de beb\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o queria estar zangado, dizia ele. N\u00e3o me queria zangar contigo. Vamos fazer as pazes. V\u00e1 l\u00e1. D\u00e1-me um abra\u00e7o. Consegues fazer isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pedinchava a choramingar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acho que na verdade foi a\u00ed s\u00f3 que eu percebi que eu tinha que entrar no jogo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aquilo era tudo demasiado absurdo. Nada fazia sentido. E pronto. Foi assim que eu estive a ouvi-lo a ler poesia. Durante uma espera pelo amanhecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, na verdade\u2026 Al\u00e9m da poesia&#8230; poesia, poesia. Ele fez uma performance para mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um escritor argentino. No quiero el mundo de mierda para nada. Ele fez uma sess\u00e3o privada do trabalho final do curso dele. Foi a PAP, o trabalho final.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele disse-me v\u00e1rias vezes nessa noite<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">que tinha sido\u2026 un\u00e2nima uma ova\u00e7\u00e3o de p\u00e9. E\u2026 Ele estava completamente man\u00edaco a contar como ele estava a dizer aquelas merdas,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">aquelas asneiras todas que n\u00e3o quer o mundo de merda, e que essas pessoas todas se levantaram e disseram ali que ele era o melhor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perguntava-me. Quem \u00e9 melhor que eu? D\u00e1-me um exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu estava sentada no sof\u00e1. Na tal sala com os c\u00e3es \u00e0 porta. E ele estava \u00e0 minha frente. Toda a noite, P.P., a contar-me hist\u00f3rias de\u2026 de centores e\u2026&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E diz-me? Quem? O Tom\u00e1s Wallenstein? D\u00e1-me um exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguma horas depois veio-se para cima de mim. Eu tinha tes\u00e3o,&nbsp; no meio daquele medo todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vestidas as cuecas rosa choque, grandes, como ele gosta, as cuecas que me comprou nessa tarde espec\u00edficamente para estimular uma fantasia espec\u00edfica que tinha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pau n\u00e3o chegou a ficar duro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1vamos quase a sair atrasados para a viagem dele onde ainda me tentaria levar antes de me deixar na auto estrada a implorar-me que fosse com ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 via a sa\u00edda a ficar para tras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foda-se. Eu tenho de ir.&nbsp; Tenho de sair aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>IMPAR\u00c1VEL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O PROSTITUTO PORTUGU\u00caS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">IMPAR\u00c1VEL (PARTE UM)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A surfista aponta com um dos dois finos que traz na m\u00e3o, em copos de pl\u00e1stico, na minha direc\u00e7\u00e3o. Logo recua o gesto para si mesma, cantarola um N\u00e3 n\u00e3 n\u00e3, e estica a boca para me sorrir. Aquela maneira que as gajas adultas faziam quando eu ainda era menor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fico confuso. Num instante apenas, achei que era menor outra vez. Mas j\u00e1 n\u00e3o sou. Olhando bem, ela \u00e9 mais velha do que eu julguei que fosse. Deve ser por isso que me olha assim. Sigo-a com o olhar, est\u00e1 a levar a cerveja ao Mauro. Ele nem olha. Continua a tocar guitarra com a Adelaide, a dona do bar de praia, e com o Espinhas, filho dela. A Margot fuma para cima da cena, o que ajuda ao tom. A luz de um projector pendurado numa haste de madeira trespassa o fumo. Vejo como se serpentea pelos convivas, que cobrem com \u00e2nimo o marulhar nocturno de um oceano descansado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 dessa bela cena que contemplo do meu canto, mais afastado, que dispara como uma flecha em arco, a provoca\u00e7\u00e3o do Mauro. Cheiras a leitinho \u00f3 P.P.. Rio-me. E sem querer, troco um olhar com a Margot \u2014 o que me faz sentir que afinal n\u00e3o me estava a rir. N\u00e3o como me rio quando estamos s\u00f3 os dois, no sof\u00e1 desengan\u00e7ado de casa dela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mantive-me afastado. O Espinhas tem agora a guitarra, e a Adelaide empoleira-se para dar voz \u00e0 ocasi\u00e3o. Os \u00e2nimos levantam-se. E o Mauro tamb\u00e9m. Vem para o p\u00e9 de mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, P.P. est\u00e1s a\u00ed, sozinho, n\u00e3o te misturas com a gente. Como \u00e9 que \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estou fixe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o gostas disto aqui?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gosto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto \u00e9 que \u00e9 vida. Surf, bares de pescadores, t\u00e1s a ver. Vida simples, meu. Tens de saber apreciar estas coisas. E mexilh\u00e3o, claro. Olha ali. Aponta para as pernas roli\u00e7as e morenas da surfista mais velha, sufocadas dentro de uns cal\u00e7\u00f5es de ganga. Afastas as pedras e encontras o mexilh\u00e3o. Diz l\u00e1 se h\u00e1 melhor s\u00edtio para viver. N\u00e3o h\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olho para o mar. Desse lado, escuro, imenso, parece-me haver algo para viver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P.P. vou andando. \u00c9 a voz da Margot. Olho. Est\u00e1 de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vais assim, Margot? N\u00e3o queres vir l\u00e1 a minha casa um bocado? Anda l\u00e1. Voc\u00eas ainda n\u00e3o foram l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o, n\u00e3o vai ser hoje. Vou-me levantar cedo e ainda tenho muito que conduzir at\u00e9 casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vou para me levantar. Ele trava-me.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eh onde \u00e9 que tu tamb\u00e9m vais?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o quero que a Margot v\u00e1 sozinha, respondo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Mauro, insistente, Margot, queres que te vamos levar para n\u00e3o ires sozinha? Podemos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela parece estar sem paci\u00eancia. Come\u00e7a a descer as escadas de madeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P.P., tu podes ficar. Eu vou-me p\u00f4r a caminho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s levamos-te, continua o Mauro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o preciso que ningu\u00e9m me leve, diz a Margot, j\u00e1 a desaparecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Mauro vira-se para mim. V\u00eas? Ela vai bem sozinha. E agora se n\u00e3o queres estar com esta malta, vais conhecer a minha casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 me meti em demasiadas coisas para me perguntar em que \u00e9 que me estou a meter.&nbsp; Em vez disso s\u00f3 n\u00e3o entendo como \u00e9 que me deixo levar pelas mar\u00e9s \u2014 como um peda\u00e7o de pl\u00e1stico a boiar por ondas, tempestades, ba\u00edas, leitos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entro no Ferrari do Mauro e \u00e9 como se voltasse ao Jipe preto em que entrei quando era mi\u00fado. N\u00e3o porque o Mauro fosse abusar de mim. Ali\u00e1s, toda a gente tem o fetiche de foder com o Mauro, mas ningu\u00e9m consegue abusar \u2014 nem ser abusado \u2014 por ele. O gajo parece que assexuou o corpo fant\u00e1stico e desej\u00e1vel que Deus lhe deu. O que me faz voltar a essa ideia tantas vezes \u00e9 uma certa passividade em permitir que as coisas me aconte\u00e7am. N\u00e3o sei se porque, de alguma maneira, espero repetir algum acontecimento, ou se porque, pelo contr\u00e1rio, nunca nada aconteceu. E quando estava para acontecer \u2014 acontecer em mim \u2014 eu quis continuar a viagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao ver o Mauro a conduzir velozmente pela serra, sem receio do perigo em que nos p\u00f5e, pergunto-lhe, Seguirias viagem?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">IMPAR\u00c1VEL (PARTE DOIS)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 enorme a casa. Os c\u00e3es saltam pelo Mauro acima e cheiram-me at\u00e9 aos ossos, mas ele agarra neles, p\u00f5e-nos fora no p\u00e1tio, e fecha a porta da sala. J\u00e1 n\u00e3o chateiam, diz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P\u00f5e-te \u00e0 vontade. Queres beber o qu\u00ea? Tu v\u00ea l\u00e1 n\u00e3o te ponhas a fazer grandes misturas com drogas, eu sei do que falo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o mandei\/<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o mandaste, n\u00e3o mandaste ainda. N\u00e3o queres seguir viagem? Ent\u00e3o, seguir viagem \u00e9 seguir viagem. N\u00e3o h\u00e1 muitos como n\u00f3s, sabes. Por isso \u00e9 que eu te trouxe c\u00e1. N\u00e3o penses que vem qualquer pessoa a minha casa. Tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1vamos a fazer l\u00e1 nada no bar. N\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o goste daquilo, eu gosto, tem boa onda. Mas isto, quando estamos n\u00f3s, quando se acerta assim, um gajo tem de seguir, seguir viagem \u00e9 seguir viagem, n\u00e3o \u00e9? Tu percebeste. No carro. Tu percebeste no carro. Por isso \u00e9 que te viraste para mim e perguntaste. Mas n\u00e3o perguntaste, pois n\u00e3o? N\u00e3o era bem uma pergunta. Era outra cena. Era ret\u00f3rica. Sabes o que \u00e9 uma pergunta ret\u00f3rica. Sabes, claro que sabes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou\u00e7o os c\u00e3es l\u00e1 fora. Aproveito para perguntar, E os c\u00e3es? Levas os c\u00e3es contigo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o. Tenho quem tome conta deles. Olha, vou mudar de roupa. E se vamos partir, n\u00e3o vamos levar muita coisa, sen\u00e3o fica logo tudo muito planeado, perde-se a coisa espont\u00e2nea, que \u00e9 a melhor, \u00e9 onde est\u00e1 o bus\u00edlis da filosofia, do bicho, do que quer que isto seja \u2013 esta coisa que andamos para aqui a fazer. A cena \u00e9 que ningu\u00e9m sabe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele entra por uma porta. Fico para ali na sala. Passeio a mirada pelos pertences por cima da lareira. Penso se n\u00e3o deveria ter ido com a Margot. J\u00e1 deve ter estar em casa. Pego no telem\u00f3vel para saber se chegou bem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, o que \u00e9 que est\u00e1s a fazer, ou\u00e7o o Mauro perguntar ao voltar pela mesma porta por onde entrou. Est\u00e1 de cuecas. Exibe os bra\u00e7os. O peito, os abdominais. M\u00fasculos das pernas, g\u00e9meos. O sexo enroscado no tecido branco el\u00e1stico. Est\u00e1s com o telem\u00f3vel na m\u00e3o para qu\u00ea? Est\u00e1s a fazer alguma coisa com isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fico atrapalhado. N\u00e3o, estou s\u00f3\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aponta a\u00ed para mim, ent\u00e3o, diz-me. Se est\u00e1s com ele na m\u00e3o, tens de o usar. Isto \u00e9 como quando \u00e9s apanhado a bater uma. Mais vale seres digno e vires-te na cara de quem te apanhou. Anda, aponta a\u00ed. Ent\u00e3o? T\u00e1s a cheirar a leitinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu aponto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora filma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu vou a medo com o dedo nervoso ao ecr\u00e3 do telem\u00f3vel procurar o rec da c\u00e2mara. Ligo. Come\u00e7o a filmar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">T\u00e1s a filmar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o me apontes para a cara. Assim, n\u00e3o. Aponta para o corpo. V\u00ea isto como um objecto. \u00c9 s\u00f3 um corpo. N\u00e3o \u00e9 mais do que isso. N\u00e3o consegues ver nisto s\u00f3 um corpo? N\u00e3o \u00e9 o Mauro, n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m. \u00c9 s\u00f3 carne, carne quente. Olha. D\u00e1 c\u00e1, chega c\u00e1 a tua m\u00e3o. V\u00ea.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele pega na minha m\u00e3o e p\u00f5e-na na barriga dele. \u00c9 dura, muito lisa e respira. Desce um pouco. Est\u00e1 rente \u00e0s cuecas. V\u00eas? \u00c9 ou n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um corpo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9, digo-lhe vencido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1s a apontar-me para a cara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o est\u00e1 a filmar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o quero saber. Desliga isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1 desligado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o interessa. N\u00e3o apontes essa merda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1s-te a passar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele ri-se. Aponta com o dedo para a minha cara. S\u00f3 se passa quem estiver deste lado. Tu est\u00e1s do lado de quem?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e3?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1s do lado de quem? Do meu ou do da tua amiga?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu agora estou aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois est\u00e1s. E eu olha, sabes que mais? Me cago en Dios. Sabias que essa foi a minha tese? Me cago en Dios. Tive uma ova\u00e7\u00e3o de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De mestrado?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o. A\u00ed \u00e9 que est\u00e1. De PAP. Que \u00e9 muito mais importante, voc\u00eas \u00e9 que n\u00e3o percebem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Come\u00e7ou-me a parecer que n\u00e3o iriamos sair daquela casa. Vais-te vestir, perguntei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vou ainda tomar banho. Curtes ler poesia? Podias ler para mim enquanto eu tomo banho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eh pa, Mauro. Mas tu est\u00e1s numa de ir e seguir viagem ou nem por isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P.P., j\u00e1 te disse que sim, n\u00e3o disse?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Disseste, mas agora est\u00e1s a falar em ler-te poesia, n\u00e3o me parece que te estejas a despachar para irmos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A despachar? Mas tu est\u00e1s agora a gozar comigo? A despachar, foi isso que tu disseste?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto come\u00e7ava a assustar-me. Olhei para a porta da sala e lembrei-me dos c\u00e3es que, embora grandes, eram amistosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas que caralho de viagem \u00e9 que \u00e9 essa? N\u00e3o estamos no mesmo comprimento de onda, como eu pensei, ent\u00e3o. Porque o gajo que falou comigo no carro, falou-me em seguir viagem, essa viagem que se segue, essa viagem interior, e que extravassa pela noite fora, pelo dia fora, que vai por a\u00ed, que n\u00e3o para nunca, que sabe-se l\u00e1 para onde vai. \u00c9 essa viagem ou n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9. \u00c9 essa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, explica-me l\u00e1, s\u00f3 para ver se eu estou a perceber, se n\u00f3s n\u00e3o sabemos onde \u00e9 que a viagem vai parar, est\u00e1s com tanta pressa para chegar aonde?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Senti-me francamente est\u00fapido, mas irritado tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A lado nenhum. Caga nisso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ME CAGO EN DIOS, grunhe com os bra\u00e7os de Ad\u00f3nis para o tecto alto da enorme sala. Depois baixou-os e no mesme lance desceu as cuecas at\u00e9 aos p\u00e9s, fazendo balou\u00e7ar um bel\u00edssimo p\u00e9nis, entoucado por uma pele morena, preso a uma s\u00f3bria camada de p\u00ealos firmes no p\u00fabis e empurrado pelo movimento pendular dos test\u00edculos \u2013 que davam talvez a ilus\u00f3ria impress\u00e3o de estar a ter uma ligeira erec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora \u00e9 devias ter estado com a c\u00e2mara ligada, diz-me. E sai na direc\u00e7\u00e3o do duche, mostrando sem medo o mais ternurento e delicioso rabo de que se podia ter tido o deslumbre de ver e perder de vista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olhei para as estantes, \u00e0 procura de um livro de poesia. Onde \u00e9 que eles estariam? Encontrei um. Fui atr\u00e1s do som da \u00e1gua a cair da pele dele sobre a lou\u00e7a da base de duche. A porta estava aberta. N\u00e3o foi preciso bater.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Encontrei um livro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00ea. L\u00ea um poema. Mas l\u00ea alto para eu ouvir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sentei-me no tampo da sanita. Abri o livro. Olhei para ele a ensaboar-se, a espuma a cavalgar-lhe pela pele luminosa. Voltei ao livro. Disse alto para que me ouvisse,&nbsp;<em>\u00c2nsia de amar Oh \u00e2nsia de viver uma hora s\u00f3 que seja, mas vivida e satisfeita\u2026 e pode-se morrer, porque se morre aben\u00e7oando a vida!<\/em>&nbsp;Ele lava o p\u00e9nis com a m\u00e3o, apertando-o. Sabe que os meus olhos espreitam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Mas essa hora suprema em que se vive quanto possa sonhar-se de ventura, oh vida mentirosa, oh vida impura, esperei-a, esperei-a, e nunca a tive!&nbsp; E quantos como eu a desejaram, e quantos como eu nunca a tiveram, uma hora de amor como a sonharam!<\/em>&nbsp;Ele agacha-se, de c\u00f3coras. Passa as m\u00e3os pelas coxas, abra\u00e7a as pernas. Eu continuo,&nbsp;<em>Em quantos olhos tristes tenho eu lido<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>o desespero dos que n\u00e3o viveram esse sonho de amor incompreendido.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00e1gua cai-lhe na nuca. Mauro? Est\u00e1s bem?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele chora. Fecho a torneira do duche. Deito a toalha sobre as costas dele. Envolvo-o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabes o que \u00e9 que me custa, P.P.? \u00c9 que os que dizem que sabem quem eu sou, os que acham que me conhecem, vivem a vida mentirosa. A vida mentirosa, repara no que diz o poeta. A vida mentirosa, e vivem a vida mentirosa a dizerem aos outros como \u00e9 que devem viver a sua vida. Eu n\u00e3o confio em ningu\u00e9m P.P., eu sei como \u00e9 que me olham. Eu vejo o fingimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ningu\u00e9m te olha de maneira nenhuma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o mintas, tamb\u00e9m tu. Tu n\u00e3o \u00e9s assim. N\u00e3o comeces a ser agora. Eu sei, P.P.. As pessoas ferem com o olhar. E n\u00e3o \u00e9 sem querer. S\u00f3 n\u00e3o ferem mais porque n\u00e3o podem. Achas que eu n\u00e3o sei? Essa tua amiga Margot \u00e9 uma delas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Margot?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, essa. Achas que eu n\u00e3o sinto. Deve estar zangada por achar que eu n\u00e3o a acho mulher o suficiente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 o que tu achas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levanta-se. O p\u00e9nis, agora lavado, fica \u00e0 altura da minha cabe\u00e7a. Disfar\u00e7o. Tento olhar para cima, para ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dessa tua amiga Margot at\u00e9 acho. Se fosse mulher o suficiente n\u00e3o precisava de me olhar assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E diz uma mulher que seja que aches que n\u00e3o te olhe assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o sou mulher.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso eu n\u00e3o sei. Estou aqui com o meu pirilau \u00e0 mostra e n\u00e3o vi o teu. Deixa l\u00e1 ver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diz isto e lan\u00e7a-se a desapertar-me as cal\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1 quieto, p\u00e1. Afasto-o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele continua. Agora mostras. Quero ver se n\u00e3o me est\u00e1s a\u00ed a enganar e se n\u00e3o \u00e9s uma gaja disfar\u00e7ada. Se fores, vou-te arrancar esse mexilh\u00e3o \u00e0 dentada. Vais ver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso eu gostava de ver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ai gostavas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Mauro lan\u00e7a-se a mim como o pulo de um animal em ataque e prende-me de costas contra o ch\u00e3o. Eu esperneio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1s forte? Para quem cheira a leitinho? Ele senta-se nas minhas costas, nu, com os joelhos um para cada lado da minha cabe\u00e7a. Tento virar-me enquanto ele me baixa as cal\u00e7as com as cuecas junto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P\u00e1, est\u00e1 quieto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vamos l\u00e1 ver o que \u00e9 que temos aqui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Consigo voltar-me de frente e aquele p\u00e9nis perfeito est\u00e1 agora praticamente a bater-me na cara. Tento empurra-lo mas ele \u00e9 forte. Sinto a m\u00e3o dele agarrar-me no meu p\u00e9nis e apert\u00e1-lo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Temos vergalho. Deixa l\u00e1 ver se n\u00e3o \u00e9 falso. E aqui, s\u00e3o tomates a s\u00e9rio? Parece que sim. Est\u00e1s livre, passas-te no exame do Mauro ginecologista. Dito isto, solta-me.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tu \u00e9s muita passado, p\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E tu \u00e9s muito homem. Isso \u00e9 que \u00e9 pena. At\u00e9 nos encaixamos bem. E curto ouvir-te a ler poesia. Quase me d\u00e1s tusa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois mais vale contentares-te porque n\u00e3o tou \u00e9 a ver nenhuma mulher que te v\u00e1 aguentar, Mauro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 te disse que nem todas as mulheres s\u00e3o como a tua amiga, Margot. E que nem a acho assim t\u00e3o mulher. Ela \u00e9 que se deve achar mais mulher que as outras. Mas olha que h\u00e1 uma mulher, e essa sim \u00e9 mulher, mulher mesmo, dessas com mexilh\u00e3o no meio das pedras, que \u00e9 c\u00e1 da nossa irmandade. E tu conheces.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aperto o cinto. Quem, pergunto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma meio francesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aguardo que ele me diga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tu sabes quem \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Sophie, arrisco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu disse-te que tu sabias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa sim, foi das tais que p\u00f4de vir c\u00e1 a casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tive um laivo de ci\u00fame. A Sophie ali, com ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela, tu, eu, somos a irmandade da viagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A viagem que n\u00e3o come\u00e7ou, pergunto-lhe, irritado com tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas nada o parece afectar. Diz-me, satisfeito, A viagem que come\u00e7ou. E que nunca vai parar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">IMPAR\u00c1VEL (PARTE TR\u00caS)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, cheguei l\u00e1 a casa e n\u00e3o tinha bateria no telefone e fiquei um bocadinho estressada, porque estava no meio do nada e o Mauro estava ao telefone com uma pessoa dali das redondezas, muito f\u00e3, um rapaz muito f\u00e3 dele que estava muito contente por estar a falar com ele ao telefone. E nisso estiveram uns bons 40 minutos, uma hora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, no entretanto, eu fazia-lhe sinais se ele podia dar-me o contacto de algum amigo meu. Porque eu, entretanto, tinha conseguido recuperar o\u2026 Eu tinha, olha, eu esqueci-me do PIN, eu fiquei sem bateria, depois consegui ligar, mas depois n\u00e3o tinha o PIN, ent\u00e3o tive de ligar, olha, uma confus\u00e3o. Ele enervou-se muito por eu estar stressada com o telefone e come\u00e7ou\u2026 Levantou-se, j\u00e1 estava em tronco nu, grande, forte para caralho, a sala, a porta d\u00e1 diretamente para a rua, para a serra, tem um p\u00e1tio com os c\u00e3es e a serra depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E est\u00e1vamos ali naquela sala, s\u00f3 a porta, n\u00e3o havia nenhuma divis\u00e3o a impedir-me de sair, mas ele disse-me que n\u00e3o merecia o que lhe estava a acontecer, que cheguei a casa e que n\u00e3o tinha feito&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o tinha tratado bem dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso foi muito estranho porque at\u00e9 ali, at\u00e9 entramos na casa dele, est\u00e1vamos num lugar\u2026. de\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1vamos a seduzir e, de repente, ele passou para um papel de&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como se houvesse ali coisas adquiridas e eu tivesse uma postura espec\u00edfica que tivesse de ter, uma gratid\u00e3o para com ele como o rapaz do telefone que tamb\u00e9m queria ser cantor. E disse-lhe que estava\u2026 Que estava nervosa, que n\u00e3o me estava a sentir bem, e que queria ir embora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ele disse-me, N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o vais embora. N\u00e3o vais embora agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E disse-lhe, Mas tu disseste-me qualquer coisa para eu te dizer, e que tu me chamavas um carro para eu voltar para casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele disse-me, N\u00e3o, n\u00e3o, eu n\u00e3o vou fazer isso, porque eu n\u00e3o mere\u00e7o isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o vieste at\u00e9 aqui, para agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu ficar sozinho o resto da noite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, pronto, come\u00e7\u00e1mos a discutir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o sei, pronto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, de repente, eu sinto uma coisa a passar-me, assim, a rentar a cabe\u00e7a e o barulho<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;z\u00e1s!!!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;trumm!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pronto, era a lareira, o vidro da lareira a partir, com o objeto que ele atirou na direc\u00e7\u00e3o da minha cabe\u00e7a, e que me passou \u00e0 razia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu tinha bloqueado o meu telem\u00f3vel,&nbsp; enganei-me 3 vezes no pin.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu, na altura, lembro-me que cheguei at\u00e9 a sair da situa\u00e7\u00e3o e vi-me de fora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E vi-nos de fora, porque ele estava a dizer coisas t\u00e3o clich\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele disse assim, tu est\u00e1s a ver?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele estava completamente descontrolado, parece que os m\u00fasculos dele tinham crescido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele era enorme.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E eu disse, eu vou-me embora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ele disse, vais vais,&nbsp; para o meio da serra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu disse, vou, n\u00e3o quero saber.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vou, vou para o meio da serra, hei-de encontrar algu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o quatro da manh\u00e3, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o faz mal, eu vou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o, a minha porta ningu\u00e9m abre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem abre a porta da minha casa sou eu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E isto, eu estava a tentar avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta e foi t\u00e3o amea\u00e7ador a forma como ele disse isto, que eu percebi imediatamente que se eu tentasse abrir a porta, eu n\u00e3o conseguia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele vinha atr\u00e1s de mim agarrava-me e tapava a boca, ou o que fosse, e eu estava\u2026 N\u00e3o havia vida l\u00e1 fora. S\u00f3 noite e os caes, tr\u00eas ou quatro, ali \u00e0 porta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pronto. Ent\u00e3o eu percebi que eu n\u00e3o podia abrir a porta, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, estava trancada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensei, este gajo est\u00e1 maluco, est\u00e1-se a tornar agressivo. Tive medo, ele \u00e9 forte, a serra \u00e9 muda. Eu vou tomar calmantes e durmo at\u00e9 de manh\u00e3 e at\u00e9 ser poss\u00edvel ir embora daqui, pensei.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ent\u00e3o pedi-lhe, Ah p\u00e1, estou muito ansiosa, arranjas um calmante?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Disse que n\u00e3o me ia dar. Porque podia-me acontecer alguma coisa e ele n\u00e3o se queria responsabilizar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o eu percebi que tinha que estar acordada e estar com ele. Como ele queira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se n\u00e3o podia dormir e dessa forma fugir ao confronto, e n\u00e3o saber o que ia acontecer e n\u00e3o reagir e n\u00e3o provocar\u2026 Ent\u00e3o eu ia ter que estar muito alerta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bom, ent\u00e3o acho que foi rapidamente que percebi que tinha que manipul\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E foi assim que eu estive desde esta madrugada at\u00e9 que \u00e0s quatro da tarde do dia a seguir, ele estava&nbsp; fazer a mala, tinha um concerto em Vigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando ligou a editora dele a dizer, Como \u00e9 que tu n\u00e3o est\u00e1s ainda a sair para Vigo, Mauro?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como \u00e9 poss\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tiveram discuss\u00e3o sobre as expectativas dela para com ele. Ela lembra-se de certeza dessa conversa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8216;Toda uma equipa \u00e0 tua espera!&#8217;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sendo que ele era suposto estar a chegar a Vigo por volta das cinco da tarde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e0s quatro ainda estavam a ter esta conversa. Serra da Freita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu estive muitas horas ali. Doze?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, come\u00e7o a recordar-me, foda-se. Partiu a lareira! N\u00e3o estou a trat\u00e1-lo como ele merece. Ele queria um abra\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois disto, come\u00e7ou a parecer uma crian\u00e7a. De repente, aqueles m\u00fasculos gigantes a crescer passaram para uma express\u00e3o de beb\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o queria estar zangado, dizia ele. N\u00e3o me queria zangar contigo. Vamos fazer as pazes. V\u00e1 l\u00e1. D\u00e1-me um abra\u00e7o. Consegues fazer isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pedinchava a choramingar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acho que na verdade foi a\u00ed s\u00f3 que eu percebi que eu tinha que entrar no jogo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aquilo era tudo demasiado absurdo. Nada fazia sentido. E pronto. Foi assim que eu estive a ouvi-lo a ler poesia. Durante uma espera pelo amanhecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, na verdade\u2026 Al\u00e9m da poesia&#8230; poesia, poesia. Ele fez uma performance para mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um escritor argentino. No quiero el mundo de mierda para nada. Ele fez uma sess\u00e3o privada do trabalho final do curso dele. Foi a PAP, o trabalho final.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele disse-me v\u00e1rias vezes nessa noite<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">que tinha sido\u2026 un\u00e2nima uma ova\u00e7\u00e3o de p\u00e9. E\u2026 Ele estava completamente man\u00edaco a contar como ele estava a dizer aquelas merdas,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">aquelas asneiras todas que n\u00e3o quer o mundo de merda, e que essas pessoas todas se levantaram e disseram ali que ele era o melhor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perguntava-me. Quem \u00e9 melhor que eu? D\u00e1-me um exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu estava sentada no sof\u00e1. Na tal sala com os c\u00e3es \u00e0 porta. E ele estava \u00e0 minha frente. Toda a noite, P.P., a contar-me hist\u00f3rias de\u2026 de centores e\u2026&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E diz-me? Quem? O Tom\u00e1s Wallenstein? D\u00e1-me um exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguma horas depois veio-se para cima de mim. Eu tinha tes\u00e3o,&nbsp; no meio daquele medo todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vestidas as cuecas rosa choque, grandes, como ele gosta, as cuecas que me comprou nessa tarde espec\u00edficamente para estimular uma fantasia espec\u00edfica que tinha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pau n\u00e3o chegou a ficar duro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1vamos quase a sair atrasados para a viagem dele onde ainda me tentaria levar antes de me deixar na auto estrada a implorar-me que fosse com ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 via a sa\u00edda a ficar para tras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foda-se. Eu tenho de ir.&nbsp; Tenho de sair aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>IMPAR\u00c1VEL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O PROSTITUTO PORTUGU\u00caS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">IMPAR\u00c1VEL (PARTE UM)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A surfista aponta com um dos dois finos que traz na m\u00e3o, em copos de pl\u00e1stico, na minha direc\u00e7\u00e3o. Logo recua o gesto para si mesma, cantarola um N\u00e3 n\u00e3 n\u00e3, e estica a boca para me sorrir. Aquela maneira que as gajas adultas faziam quando eu ainda era menor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fico confuso. Num instante apenas, achei que era menor outra vez. Mas j\u00e1 n\u00e3o sou. Olhando bem, ela \u00e9 mais velha do que eu julguei que fosse. Deve ser por isso que me olha assim. Sigo-a com o olhar, est\u00e1 a levar a cerveja ao Mauro. Ele nem olha. Continua a tocar guitarra com a Adelaide, a dona do bar de praia, e com o Espinhas, filho dela. A Margot fuma para cima da cena, o que ajuda ao tom. A luz de um projector pendurado numa haste de madeira trespassa o fumo. Vejo como se serpentea pelos convivas, que cobrem com \u00e2nimo o marulhar nocturno de um oceano descansado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 dessa bela cena que contemplo do meu canto, mais afastado, que dispara como uma flecha em arco, a provoca\u00e7\u00e3o do Mauro. Cheiras a leitinho \u00f3 P.P.. Rio-me. E sem querer, troco um olhar com a Margot \u2014 o que me faz sentir que afinal n\u00e3o me estava a rir. N\u00e3o como me rio quando estamos s\u00f3 os dois, no sof\u00e1 desengan\u00e7ado de casa dela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mantive-me afastado. O Espinhas tem agora a guitarra, e a Adelaide empoleira-se para dar voz \u00e0 ocasi\u00e3o. Os \u00e2nimos levantam-se. E o Mauro tamb\u00e9m. Vem para o p\u00e9 de mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, P.P. est\u00e1s a\u00ed, sozinho, n\u00e3o te misturas com a gente. Como \u00e9 que \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estou fixe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o gostas disto aqui?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gosto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto \u00e9 que \u00e9 vida. Surf, bares de pescadores, t\u00e1s a ver. Vida simples, meu. Tens de saber apreciar estas coisas. E mexilh\u00e3o, claro. Olha ali. Aponta para as pernas roli\u00e7as e morenas da surfista mais velha, sufocadas dentro de uns cal\u00e7\u00f5es de ganga. Afastas as pedras e encontras o mexilh\u00e3o. Diz l\u00e1 se h\u00e1 melhor s\u00edtio para viver. N\u00e3o h\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olho para o mar. Desse lado, escuro, imenso, parece-me haver algo para viver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P.P. vou andando. \u00c9 a voz da Margot. Olho. Est\u00e1 de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vais assim, Margot? N\u00e3o queres vir l\u00e1 a minha casa um bocado? Anda l\u00e1. Voc\u00eas ainda n\u00e3o foram l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o, n\u00e3o vai ser hoje. Vou-me levantar cedo e ainda tenho muito que conduzir at\u00e9 casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vou para me levantar. Ele trava-me.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eh onde \u00e9 que tu tamb\u00e9m vais?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o quero que a Margot v\u00e1 sozinha, respondo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Mauro, insistente, Margot, queres que te vamos levar para n\u00e3o ires sozinha? Podemos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela parece estar sem paci\u00eancia. Come\u00e7a a descer as escadas de madeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P.P., tu podes ficar. Eu vou-me p\u00f4r a caminho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s levamos-te, continua o Mauro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o preciso que ningu\u00e9m me leve, diz a Margot, j\u00e1 a desaparecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Mauro vira-se para mim. V\u00eas? Ela vai bem sozinha. E agora se n\u00e3o queres estar com esta malta, vais conhecer a minha casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 me meti em demasiadas coisas para me perguntar em que \u00e9 que me estou a meter.&nbsp; Em vez disso s\u00f3 n\u00e3o entendo como \u00e9 que me deixo levar pelas mar\u00e9s \u2014 como um peda\u00e7o de pl\u00e1stico a boiar por ondas, tempestades, ba\u00edas, leitos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entro no Ferrari do Mauro e \u00e9 como se voltasse ao Jipe preto em que entrei quando era mi\u00fado. N\u00e3o porque o Mauro fosse abusar de mim. Ali\u00e1s, toda a gente tem o fetiche de foder com o Mauro, mas ningu\u00e9m consegue abusar \u2014 nem ser abusado \u2014 por ele. O gajo parece que assexuou o corpo fant\u00e1stico e desej\u00e1vel que Deus lhe deu. O que me faz voltar a essa ideia tantas vezes \u00e9 uma certa passividade em permitir que as coisas me aconte\u00e7am. N\u00e3o sei se porque, de alguma maneira, espero repetir algum acontecimento, ou se porque, pelo contr\u00e1rio, nunca nada aconteceu. E quando estava para acontecer \u2014 acontecer em mim \u2014 eu quis continuar a viagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao ver o Mauro a conduzir velozmente pela serra, sem receio do perigo em que nos p\u00f5e, pergunto-lhe, Seguirias viagem?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">IMPAR\u00c1VEL (PARTE DOIS)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 enorme a casa. Os c\u00e3es saltam pelo Mauro acima e cheiram-me at\u00e9 aos ossos, mas ele agarra neles, p\u00f5e-nos fora no p\u00e1tio, e fecha a porta da sala. J\u00e1 n\u00e3o chateiam, diz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P\u00f5e-te \u00e0 vontade. Queres beber o qu\u00ea? Tu v\u00ea l\u00e1 n\u00e3o te ponhas a fazer grandes misturas com drogas, eu sei do que falo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o mandei\/<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o mandaste, n\u00e3o mandaste ainda. N\u00e3o queres seguir viagem? Ent\u00e3o, seguir viagem \u00e9 seguir viagem. N\u00e3o h\u00e1 muitos como n\u00f3s, sabes. Por isso \u00e9 que eu te trouxe c\u00e1. N\u00e3o penses que vem qualquer pessoa a minha casa. Tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1vamos a fazer l\u00e1 nada no bar. N\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o goste daquilo, eu gosto, tem boa onda. Mas isto, quando estamos n\u00f3s, quando se acerta assim, um gajo tem de seguir, seguir viagem \u00e9 seguir viagem, n\u00e3o \u00e9? Tu percebeste. No carro. Tu percebeste no carro. Por isso \u00e9 que te viraste para mim e perguntaste. Mas n\u00e3o perguntaste, pois n\u00e3o? N\u00e3o era bem uma pergunta. Era outra cena. Era ret\u00f3rica. Sabes o que \u00e9 uma pergunta ret\u00f3rica. Sabes, claro que sabes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou\u00e7o os c\u00e3es l\u00e1 fora. Aproveito para perguntar, E os c\u00e3es? Levas os c\u00e3es contigo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o. Tenho quem tome conta deles. Olha, vou mudar de roupa. E se vamos partir, n\u00e3o vamos levar muita coisa, sen\u00e3o fica logo tudo muito planeado, perde-se a coisa espont\u00e2nea, que \u00e9 a melhor, \u00e9 onde est\u00e1 o bus\u00edlis da filosofia, do bicho, do que quer que isto seja \u2013 esta coisa que andamos para aqui a fazer. A cena \u00e9 que ningu\u00e9m sabe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele entra por uma porta. Fico para ali na sala. Passeio a mirada pelos pertences por cima da lareira. Penso se n\u00e3o deveria ter ido com a Margot. J\u00e1 deve ter estar em casa. Pego no telem\u00f3vel para saber se chegou bem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, o que \u00e9 que est\u00e1s a fazer, ou\u00e7o o Mauro perguntar ao voltar pela mesma porta por onde entrou. Est\u00e1 de cuecas. Exibe os bra\u00e7os. O peito, os abdominais. M\u00fasculos das pernas, g\u00e9meos. O sexo enroscado no tecido branco el\u00e1stico. Est\u00e1s com o telem\u00f3vel na m\u00e3o para qu\u00ea? Est\u00e1s a fazer alguma coisa com isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fico atrapalhado. N\u00e3o, estou s\u00f3\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aponta a\u00ed para mim, ent\u00e3o, diz-me. Se est\u00e1s com ele na m\u00e3o, tens de o usar. Isto \u00e9 como quando \u00e9s apanhado a bater uma. Mais vale seres digno e vires-te na cara de quem te apanhou. Anda, aponta a\u00ed. Ent\u00e3o? T\u00e1s a cheirar a leitinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu aponto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora filma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu vou a medo com o dedo nervoso ao ecr\u00e3 do telem\u00f3vel procurar o rec da c\u00e2mara. Ligo. Come\u00e7o a filmar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">T\u00e1s a filmar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o me apontes para a cara. Assim, n\u00e3o. Aponta para o corpo. V\u00ea isto como um objecto. \u00c9 s\u00f3 um corpo. N\u00e3o \u00e9 mais do que isso. N\u00e3o consegues ver nisto s\u00f3 um corpo? N\u00e3o \u00e9 o Mauro, n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m. \u00c9 s\u00f3 carne, carne quente. Olha. D\u00e1 c\u00e1, chega c\u00e1 a tua m\u00e3o. V\u00ea.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele pega na minha m\u00e3o e p\u00f5e-na na barriga dele. \u00c9 dura, muito lisa e respira. Desce um pouco. Est\u00e1 rente \u00e0s cuecas. V\u00eas? \u00c9 ou n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um corpo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9, digo-lhe vencido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1s a apontar-me para a cara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o est\u00e1 a filmar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o quero saber. Desliga isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1 desligado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o interessa. N\u00e3o apontes essa merda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1s-te a passar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele ri-se. Aponta com o dedo para a minha cara. S\u00f3 se passa quem estiver deste lado. Tu est\u00e1s do lado de quem?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e3?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1s do lado de quem? Do meu ou do da tua amiga?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu agora estou aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois est\u00e1s. E eu olha, sabes que mais? Me cago en Dios. Sabias que essa foi a minha tese? Me cago en Dios. Tive uma ova\u00e7\u00e3o de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De mestrado?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o. A\u00ed \u00e9 que est\u00e1. De PAP. Que \u00e9 muito mais importante, voc\u00eas \u00e9 que n\u00e3o percebem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Come\u00e7ou-me a parecer que n\u00e3o iriamos sair daquela casa. Vais-te vestir, perguntei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vou ainda tomar banho. Curtes ler poesia? Podias ler para mim enquanto eu tomo banho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eh pa, Mauro. Mas tu est\u00e1s numa de ir e seguir viagem ou nem por isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P.P., j\u00e1 te disse que sim, n\u00e3o disse?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Disseste, mas agora est\u00e1s a falar em ler-te poesia, n\u00e3o me parece que te estejas a despachar para irmos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A despachar? Mas tu est\u00e1s agora a gozar comigo? A despachar, foi isso que tu disseste?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto come\u00e7ava a assustar-me. Olhei para a porta da sala e lembrei-me dos c\u00e3es que, embora grandes, eram amistosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas que caralho de viagem \u00e9 que \u00e9 essa? N\u00e3o estamos no mesmo comprimento de onda, como eu pensei, ent\u00e3o. Porque o gajo que falou comigo no carro, falou-me em seguir viagem, essa viagem que se segue, essa viagem interior, e que extravassa pela noite fora, pelo dia fora, que vai por a\u00ed, que n\u00e3o para nunca, que sabe-se l\u00e1 para onde vai. \u00c9 essa viagem ou n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9. \u00c9 essa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, explica-me l\u00e1, s\u00f3 para ver se eu estou a perceber, se n\u00f3s n\u00e3o sabemos onde \u00e9 que a viagem vai parar, est\u00e1s com tanta pressa para chegar aonde?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Senti-me francamente est\u00fapido, mas irritado tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A lado nenhum. Caga nisso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ME CAGO EN DIOS, grunhe com os bra\u00e7os de Ad\u00f3nis para o tecto alto da enorme sala. Depois baixou-os e no mesme lance desceu as cuecas at\u00e9 aos p\u00e9s, fazendo balou\u00e7ar um bel\u00edssimo p\u00e9nis, entoucado por uma pele morena, preso a uma s\u00f3bria camada de p\u00ealos firmes no p\u00fabis e empurrado pelo movimento pendular dos test\u00edculos \u2013 que davam talvez a ilus\u00f3ria impress\u00e3o de estar a ter uma ligeira erec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora \u00e9 devias ter estado com a c\u00e2mara ligada, diz-me. E sai na direc\u00e7\u00e3o do duche, mostrando sem medo o mais ternurento e delicioso rabo de que se podia ter tido o deslumbre de ver e perder de vista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olhei para as estantes, \u00e0 procura de um livro de poesia. Onde \u00e9 que eles estariam? Encontrei um. Fui atr\u00e1s do som da \u00e1gua a cair da pele dele sobre a lou\u00e7a da base de duche. A porta estava aberta. N\u00e3o foi preciso bater.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Encontrei um livro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00ea. L\u00ea um poema. Mas l\u00ea alto para eu ouvir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sentei-me no tampo da sanita. Abri o livro. Olhei para ele a ensaboar-se, a espuma a cavalgar-lhe pela pele luminosa. Voltei ao livro. Disse alto para que me ouvisse,&nbsp;<em>\u00c2nsia de amar Oh \u00e2nsia de viver uma hora s\u00f3 que seja, mas vivida e satisfeita\u2026 e pode-se morrer, porque se morre aben\u00e7oando a vida!<\/em>&nbsp;Ele lava o p\u00e9nis com a m\u00e3o, apertando-o. Sabe que os meus olhos espreitam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Mas essa hora suprema em que se vive quanto possa sonhar-se de ventura, oh vida mentirosa, oh vida impura, esperei-a, esperei-a, e nunca a tive!&nbsp; E quantos como eu a desejaram, e quantos como eu nunca a tiveram, uma hora de amor como a sonharam!<\/em>&nbsp;Ele agacha-se, de c\u00f3coras. Passa as m\u00e3os pelas coxas, abra\u00e7a as pernas. Eu continuo,&nbsp;<em>Em quantos olhos tristes tenho eu lido<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>o desespero dos que n\u00e3o viveram esse sonho de amor incompreendido.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00e1gua cai-lhe na nuca. Mauro? Est\u00e1s bem?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele chora. Fecho a torneira do duche. Deito a toalha sobre as costas dele. Envolvo-o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabes o que \u00e9 que me custa, P.P.? \u00c9 que os que dizem que sabem quem eu sou, os que acham que me conhecem, vivem a vida mentirosa. A vida mentirosa, repara no que diz o poeta. A vida mentirosa, e vivem a vida mentirosa a dizerem aos outros como \u00e9 que devem viver a sua vida. Eu n\u00e3o confio em ningu\u00e9m P.P., eu sei como \u00e9 que me olham. Eu vejo o fingimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ningu\u00e9m te olha de maneira nenhuma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o mintas, tamb\u00e9m tu. Tu n\u00e3o \u00e9s assim. N\u00e3o comeces a ser agora. Eu sei, P.P.. As pessoas ferem com o olhar. E n\u00e3o \u00e9 sem querer. S\u00f3 n\u00e3o ferem mais porque n\u00e3o podem. Achas que eu n\u00e3o sei? Essa tua amiga Margot \u00e9 uma delas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Margot?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, essa. Achas que eu n\u00e3o sinto. Deve estar zangada por achar que eu n\u00e3o a acho mulher o suficiente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 o que tu achas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levanta-se. O p\u00e9nis, agora lavado, fica \u00e0 altura da minha cabe\u00e7a. Disfar\u00e7o. Tento olhar para cima, para ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dessa tua amiga Margot at\u00e9 acho. Se fosse mulher o suficiente n\u00e3o precisava de me olhar assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E diz uma mulher que seja que aches que n\u00e3o te olhe assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o sou mulher.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso eu n\u00e3o sei. Estou aqui com o meu pirilau \u00e0 mostra e n\u00e3o vi o teu. Deixa l\u00e1 ver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diz isto e lan\u00e7a-se a desapertar-me as cal\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1 quieto, p\u00e1. Afasto-o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele continua. Agora mostras. Quero ver se n\u00e3o me est\u00e1s a\u00ed a enganar e se n\u00e3o \u00e9s uma gaja disfar\u00e7ada. Se fores, vou-te arrancar esse mexilh\u00e3o \u00e0 dentada. Vais ver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso eu gostava de ver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ai gostavas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Mauro lan\u00e7a-se a mim como o pulo de um animal em ataque e prende-me de costas contra o ch\u00e3o. Eu esperneio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1s forte? Para quem cheira a leitinho? Ele senta-se nas minhas costas, nu, com os joelhos um para cada lado da minha cabe\u00e7a. Tento virar-me enquanto ele me baixa as cal\u00e7as com as cuecas junto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P\u00e1, est\u00e1 quieto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vamos l\u00e1 ver o que \u00e9 que temos aqui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Consigo voltar-me de frente e aquele p\u00e9nis perfeito est\u00e1 agora praticamente a bater-me na cara. Tento empurra-lo mas ele \u00e9 forte. Sinto a m\u00e3o dele agarrar-me no meu p\u00e9nis e apert\u00e1-lo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Temos vergalho. Deixa l\u00e1 ver se n\u00e3o \u00e9 falso. E aqui, s\u00e3o tomates a s\u00e9rio? Parece que sim. Est\u00e1s livre, passas-te no exame do Mauro ginecologista. Dito isto, solta-me.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tu \u00e9s muita passado, p\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E tu \u00e9s muito homem. Isso \u00e9 que \u00e9 pena. At\u00e9 nos encaixamos bem. E curto ouvir-te a ler poesia. Quase me d\u00e1s tusa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois mais vale contentares-te porque n\u00e3o tou \u00e9 a ver nenhuma mulher que te v\u00e1 aguentar, Mauro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 te disse que nem todas as mulheres s\u00e3o como a tua amiga, Margot. E que nem a acho assim t\u00e3o mulher. Ela \u00e9 que se deve achar mais mulher que as outras. Mas olha que h\u00e1 uma mulher, e essa sim \u00e9 mulher, mulher mesmo, dessas com mexilh\u00e3o no meio das pedras, que \u00e9 c\u00e1 da nossa irmandade. E tu conheces.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aperto o cinto. Quem, pergunto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma meio francesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aguardo que ele me diga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tu sabes quem \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Sophie, arrisco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu disse-te que tu sabias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa sim, foi das tais que p\u00f4de vir c\u00e1 a casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tive um laivo de ci\u00fame. A Sophie ali, com ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela, tu, eu, somos a irmandade da viagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A viagem que n\u00e3o come\u00e7ou, pergunto-lhe, irritado com tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas nada o parece afectar. Diz-me, satisfeito, A viagem que come\u00e7ou. E que nunca vai parar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">IMPAR\u00c1VEL (PARTE TR\u00caS)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, cheguei l\u00e1 a casa e n\u00e3o tinha bateria no telefone e fiquei um bocadinho estressada, porque estava no meio do nada e o Mauro estava ao telefone com uma pessoa dali das redondezas, muito f\u00e3, um rapaz muito f\u00e3 dele que estava muito contente por estar a falar com ele ao telefone. E nisso estiveram uns bons 40 minutos, uma hora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, no entretanto, eu fazia-lhe sinais se ele podia dar-me o contacto de algum amigo meu. Porque eu, entretanto, tinha conseguido recuperar o\u2026 Eu tinha, olha, eu esqueci-me do PIN, eu fiquei sem bateria, depois consegui ligar, mas depois n\u00e3o tinha o PIN, ent\u00e3o tive de ligar, olha, uma confus\u00e3o. Ele enervou-se muito por eu estar stressada com o telefone e come\u00e7ou\u2026 Levantou-se, j\u00e1 estava em tronco nu, grande, forte para caralho, a sala, a porta d\u00e1 diretamente para a rua, para a serra, tem um p\u00e1tio com os c\u00e3es e a serra depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E est\u00e1vamos ali naquela sala, s\u00f3 a porta, n\u00e3o havia nenhuma divis\u00e3o a impedir-me de sair, mas ele disse-me que n\u00e3o merecia o que lhe estava a acontecer, que cheguei a casa e que n\u00e3o tinha feito&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o tinha tratado bem dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso foi muito estranho porque at\u00e9 ali, at\u00e9 entramos na casa dele, est\u00e1vamos num lugar\u2026. de\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1vamos a seduzir e, de repente, ele passou para um papel de&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como se houvesse ali coisas adquiridas e eu tivesse uma postura espec\u00edfica que tivesse de ter, uma gratid\u00e3o para com ele como o rapaz do telefone que tamb\u00e9m queria ser cantor. E disse-lhe que estava\u2026 Que estava nervosa, que n\u00e3o me estava a sentir bem, e que queria ir embora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ele disse-me, N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o vais embora. N\u00e3o vais embora agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E disse-lhe, Mas tu disseste-me qualquer coisa para eu te dizer, e que tu me chamavas um carro para eu voltar para casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele disse-me, N\u00e3o, n\u00e3o, eu n\u00e3o vou fazer isso, porque eu n\u00e3o mere\u00e7o isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o vieste at\u00e9 aqui, para agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu ficar sozinho o resto da noite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, pronto, come\u00e7\u00e1mos a discutir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o sei, pronto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, de repente, eu sinto uma coisa a passar-me, assim, a rentar a cabe\u00e7a e o barulho<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;z\u00e1s!!!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;trumm!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pronto, era a lareira, o vidro da lareira a partir, com o objeto que ele atirou na direc\u00e7\u00e3o da minha cabe\u00e7a, e que me passou \u00e0 razia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu tinha bloqueado o meu telem\u00f3vel,&nbsp; enganei-me 3 vezes no pin.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu, na altura, lembro-me que cheguei at\u00e9 a sair da situa\u00e7\u00e3o e vi-me de fora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E vi-nos de fora, porque ele estava a dizer coisas t\u00e3o clich\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele disse assim, tu est\u00e1s a ver?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele estava completamente descontrolado, parece que os m\u00fasculos dele tinham crescido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele era enorme.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E eu disse, eu vou-me embora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ele disse, vais vais,&nbsp; para o meio da serra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu disse, vou, n\u00e3o quero saber.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vou, vou para o meio da serra, hei-de encontrar algu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o quatro da manh\u00e3, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o faz mal, eu vou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o, a minha porta ningu\u00e9m abre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem abre a porta da minha casa sou eu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E isto, eu estava a tentar avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta e foi t\u00e3o amea\u00e7ador a forma como ele disse isto, que eu percebi imediatamente que se eu tentasse abrir a porta, eu n\u00e3o conseguia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele vinha atr\u00e1s de mim agarrava-me e tapava a boca, ou o que fosse, e eu estava\u2026 N\u00e3o havia vida l\u00e1 fora. S\u00f3 noite e os caes, tr\u00eas ou quatro, ali \u00e0 porta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pronto. Ent\u00e3o eu percebi que eu n\u00e3o podia abrir a porta, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, estava trancada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensei, este gajo est\u00e1 maluco, est\u00e1-se a tornar agressivo. Tive medo, ele \u00e9 forte, a serra \u00e9 muda. Eu vou tomar calmantes e durmo at\u00e9 de manh\u00e3 e at\u00e9 ser poss\u00edvel ir embora daqui, pensei.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ent\u00e3o pedi-lhe, Ah p\u00e1, estou muito ansiosa, arranjas um calmante?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Disse que n\u00e3o me ia dar. Porque podia-me acontecer alguma coisa e ele n\u00e3o se queria responsabilizar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o eu percebi que tinha que estar acordada e estar com ele. Como ele queira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se n\u00e3o podia dormir e dessa forma fugir ao confronto, e n\u00e3o saber o que ia acontecer e n\u00e3o reagir e n\u00e3o provocar\u2026 Ent\u00e3o eu ia ter que estar muito alerta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bom, ent\u00e3o acho que foi rapidamente que percebi que tinha que manipul\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E foi assim que eu estive desde esta madrugada at\u00e9 que \u00e0s quatro da tarde do dia a seguir, ele estava&nbsp; fazer a mala, tinha um concerto em Vigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando ligou a editora dele a dizer, Como \u00e9 que tu n\u00e3o est\u00e1s ainda a sair para Vigo, Mauro?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como \u00e9 poss\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tiveram discuss\u00e3o sobre as expectativas dela para com ele. Ela lembra-se de certeza dessa conversa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8216;Toda uma equipa \u00e0 tua espera!&#8217;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sendo que ele era suposto estar a chegar a Vigo por volta das cinco da tarde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e0s quatro ainda estavam a ter esta conversa. Serra da Freita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu estive muitas horas ali. Doze?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, come\u00e7o a recordar-me, foda-se. Partiu a lareira! N\u00e3o estou a trat\u00e1-lo como ele merece. Ele queria um abra\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois disto, come\u00e7ou a parecer uma crian\u00e7a. De repente, aqueles m\u00fasculos gigantes a crescer passaram para uma express\u00e3o de beb\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o queria estar zangado, dizia ele. N\u00e3o me queria zangar contigo. Vamos fazer as pazes. V\u00e1 l\u00e1. D\u00e1-me um abra\u00e7o. Consegues fazer isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pedinchava a choramingar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acho que na verdade foi a\u00ed s\u00f3 que eu percebi que eu tinha que entrar no jogo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aquilo era tudo demasiado absurdo. Nada fazia sentido. E pronto. Foi assim que eu estive a ouvi-lo a ler poesia. Durante uma espera pelo amanhecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, na verdade\u2026 Al\u00e9m da poesia&#8230; poesia, poesia. Ele fez uma performance para mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um escritor argentino. No quiero el mundo de mierda para nada. Ele fez uma sess\u00e3o privada do trabalho final do curso dele. Foi a PAP, o trabalho final.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele disse-me v\u00e1rias vezes nessa noite<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">que tinha sido\u2026 un\u00e2nima uma ova\u00e7\u00e3o de p\u00e9. E\u2026 Ele estava completamente man\u00edaco a contar como ele estava a dizer aquelas merdas,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">aquelas asneiras todas que n\u00e3o quer o mundo de merda, e que essas pessoas todas se levantaram e disseram ali que ele era o melhor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perguntava-me. Quem \u00e9 melhor que eu? D\u00e1-me um exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu estava sentada no sof\u00e1. Na tal sala com os c\u00e3es \u00e0 porta. E ele estava \u00e0 minha frente. Toda a noite, P.P., a contar-me hist\u00f3rias de\u2026 de centores e\u2026&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E diz-me? Quem? O Tom\u00e1s Wallenstein? D\u00e1-me um exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguma horas depois veio-se para cima de mim. Eu tinha tes\u00e3o,&nbsp; no meio daquele medo todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vestidas as cuecas rosa choque, grandes, como ele gosta, as cuecas que me comprou nessa tarde espec\u00edficamente para estimular uma fantasia espec\u00edfica que tinha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pau n\u00e3o chegou a ficar duro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1vamos quase a sair atrasados para a viagem dele onde ainda me tentaria levar antes de me deixar na auto estrada a implorar-me que fosse com ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 via a sa\u00edda a ficar para tras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foda-se. Eu tenho de ir.&nbsp; Tenho de sair aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O PROSTITUTO PORTUGU\u00caS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">IMPAR\u00c1VEL (PARTE UM)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A surfista aponta com um dos dois finos que traz na m\u00e3o, em copos de pl\u00e1stico, na minha direc\u00e7\u00e3o. Logo recua o gesto para si mesma, cantarola um N\u00e3 n\u00e3 n\u00e3, e estica a boca para me sorrir. Aquela maneira que as gajas adultas faziam quando eu ainda era menor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fico confuso. Num instante apenas, achei que era menor outra vez. Mas j\u00e1 n\u00e3o sou. Olhando bem, ela \u00e9 mais velha do que eu julguei que fosse. Deve ser por isso que me olha assim. Sigo-a com o olhar, est\u00e1 a levar a cerveja ao Mauro. Ele nem olha. Continua a tocar guitarra com a Adelaide, a dona do bar de praia, e com o Espinhas, filho dela. A Margot fuma para cima da cena, o que ajuda ao tom. A luz de um projector pendurado numa haste de madeira trespassa o fumo. Vejo como se serpentea pelos convivas, que cobrem com \u00e2nimo o marulhar nocturno de um oceano descansado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 dessa bela cena que contemplo do meu canto, mais afastado, que dispara como uma flecha em arco, a provoca\u00e7\u00e3o do Mauro. Cheiras a leitinho \u00f3 P.P.. Rio-me. E sem querer, troco um olhar com a Margot \u2014 o que me faz sentir que afinal n\u00e3o me estava a rir. N\u00e3o como me rio quando estamos s\u00f3 os dois, no sof\u00e1 desengan\u00e7ado de casa dela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mantive-me afastado. O Espinhas tem agora a guitarra, e a Adelaide empoleira-se para dar voz \u00e0 ocasi\u00e3o. Os \u00e2nimos levantam-se. E o Mauro tamb\u00e9m. Vem para o p\u00e9 de mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, P.P. est\u00e1s a\u00ed, sozinho, n\u00e3o te misturas com a gente. Como \u00e9 que \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estou fixe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o gostas disto aqui?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gosto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto \u00e9 que \u00e9 vida. Surf, bares de pescadores, t\u00e1s a ver. Vida simples, meu. Tens de saber apreciar estas coisas. E mexilh\u00e3o, claro. Olha ali. Aponta para as pernas roli\u00e7as e morenas da surfista mais velha, sufocadas dentro de uns cal\u00e7\u00f5es de ganga. Afastas as pedras e encontras o mexilh\u00e3o. Diz l\u00e1 se h\u00e1 melhor s\u00edtio para viver. N\u00e3o h\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olho para o mar. Desse lado, escuro, imenso, parece-me haver algo para viver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P.P. vou andando. \u00c9 a voz da Margot. Olho. Est\u00e1 de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vais assim, Margot? N\u00e3o queres vir l\u00e1 a minha casa um bocado? Anda l\u00e1. Voc\u00eas ainda n\u00e3o foram l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o, n\u00e3o vai ser hoje. Vou-me levantar cedo e ainda tenho muito que conduzir at\u00e9 casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vou para me levantar. Ele trava-me.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eh onde \u00e9 que tu tamb\u00e9m vais?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o quero que a Margot v\u00e1 sozinha, respondo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Mauro, insistente, Margot, queres que te vamos levar para n\u00e3o ires sozinha? Podemos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela parece estar sem paci\u00eancia. Come\u00e7a a descer as escadas de madeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P.P., tu podes ficar. Eu vou-me p\u00f4r a caminho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s levamos-te, continua o Mauro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o preciso que ningu\u00e9m me leve, diz a Margot, j\u00e1 a desaparecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Mauro vira-se para mim. V\u00eas? Ela vai bem sozinha. E agora se n\u00e3o queres estar com esta malta, vais conhecer a minha casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 me meti em demasiadas coisas para me perguntar em que \u00e9 que me estou a meter.&nbsp; Em vez disso s\u00f3 n\u00e3o entendo como \u00e9 que me deixo levar pelas mar\u00e9s \u2014 como um peda\u00e7o de pl\u00e1stico a boiar por ondas, tempestades, ba\u00edas, leitos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entro no Ferrari do Mauro e \u00e9 como se voltasse ao Jipe preto em que entrei quando era mi\u00fado. N\u00e3o porque o Mauro fosse abusar de mim. Ali\u00e1s, toda a gente tem o fetiche de foder com o Mauro, mas ningu\u00e9m consegue abusar \u2014 nem ser abusado \u2014 por ele. O gajo parece que assexuou o corpo fant\u00e1stico e desej\u00e1vel que Deus lhe deu. O que me faz voltar a essa ideia tantas vezes \u00e9 uma certa passividade em permitir que as coisas me aconte\u00e7am. N\u00e3o sei se porque, de alguma maneira, espero repetir algum acontecimento, ou se porque, pelo contr\u00e1rio, nunca nada aconteceu. E quando estava para acontecer \u2014 acontecer em mim \u2014 eu quis continuar a viagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao ver o Mauro a conduzir velozmente pela serra, sem receio do perigo em que nos p\u00f5e, pergunto-lhe, Seguirias viagem?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">IMPAR\u00c1VEL (PARTE DOIS)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 enorme a casa. Os c\u00e3es saltam pelo Mauro acima e cheiram-me at\u00e9 aos ossos, mas ele agarra neles, p\u00f5e-nos fora no p\u00e1tio, e fecha a porta da sala. J\u00e1 n\u00e3o chateiam, diz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P\u00f5e-te \u00e0 vontade. Queres beber o qu\u00ea? Tu v\u00ea l\u00e1 n\u00e3o te ponhas a fazer grandes misturas com drogas, eu sei do que falo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o mandei\/<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o mandaste, n\u00e3o mandaste ainda. N\u00e3o queres seguir viagem? Ent\u00e3o, seguir viagem \u00e9 seguir viagem. N\u00e3o h\u00e1 muitos como n\u00f3s, sabes. Por isso \u00e9 que eu te trouxe c\u00e1. N\u00e3o penses que vem qualquer pessoa a minha casa. Tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1vamos a fazer l\u00e1 nada no bar. N\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o goste daquilo, eu gosto, tem boa onda. Mas isto, quando estamos n\u00f3s, quando se acerta assim, um gajo tem de seguir, seguir viagem \u00e9 seguir viagem, n\u00e3o \u00e9? Tu percebeste. No carro. Tu percebeste no carro. Por isso \u00e9 que te viraste para mim e perguntaste. Mas n\u00e3o perguntaste, pois n\u00e3o? N\u00e3o era bem uma pergunta. Era outra cena. Era ret\u00f3rica. Sabes o que \u00e9 uma pergunta ret\u00f3rica. Sabes, claro que sabes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou\u00e7o os c\u00e3es l\u00e1 fora. Aproveito para perguntar, E os c\u00e3es? Levas os c\u00e3es contigo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o. Tenho quem tome conta deles. Olha, vou mudar de roupa. E se vamos partir, n\u00e3o vamos levar muita coisa, sen\u00e3o fica logo tudo muito planeado, perde-se a coisa espont\u00e2nea, que \u00e9 a melhor, \u00e9 onde est\u00e1 o bus\u00edlis da filosofia, do bicho, do que quer que isto seja \u2013 esta coisa que andamos para aqui a fazer. A cena \u00e9 que ningu\u00e9m sabe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele entra por uma porta. Fico para ali na sala. Passeio a mirada pelos pertences por cima da lareira. Penso se n\u00e3o deveria ter ido com a Margot. J\u00e1 deve ter estar em casa. Pego no telem\u00f3vel para saber se chegou bem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, o que \u00e9 que est\u00e1s a fazer, ou\u00e7o o Mauro perguntar ao voltar pela mesma porta por onde entrou. Est\u00e1 de cuecas. Exibe os bra\u00e7os. O peito, os abdominais. M\u00fasculos das pernas, g\u00e9meos. O sexo enroscado no tecido branco el\u00e1stico. Est\u00e1s com o telem\u00f3vel na m\u00e3o para qu\u00ea? Est\u00e1s a fazer alguma coisa com isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fico atrapalhado. N\u00e3o, estou s\u00f3\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aponta a\u00ed para mim, ent\u00e3o, diz-me. Se est\u00e1s com ele na m\u00e3o, tens de o usar. Isto \u00e9 como quando \u00e9s apanhado a bater uma. Mais vale seres digno e vires-te na cara de quem te apanhou. Anda, aponta a\u00ed. Ent\u00e3o? T\u00e1s a cheirar a leitinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu aponto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora filma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu vou a medo com o dedo nervoso ao ecr\u00e3 do telem\u00f3vel procurar o rec da c\u00e2mara. Ligo. Come\u00e7o a filmar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">T\u00e1s a filmar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o me apontes para a cara. Assim, n\u00e3o. Aponta para o corpo. V\u00ea isto como um objecto. \u00c9 s\u00f3 um corpo. N\u00e3o \u00e9 mais do que isso. N\u00e3o consegues ver nisto s\u00f3 um corpo? N\u00e3o \u00e9 o Mauro, n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m. \u00c9 s\u00f3 carne, carne quente. Olha. D\u00e1 c\u00e1, chega c\u00e1 a tua m\u00e3o. V\u00ea.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele pega na minha m\u00e3o e p\u00f5e-na na barriga dele. \u00c9 dura, muito lisa e respira. Desce um pouco. Est\u00e1 rente \u00e0s cuecas. V\u00eas? \u00c9 ou n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um corpo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9, digo-lhe vencido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1s a apontar-me para a cara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o est\u00e1 a filmar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o quero saber. Desliga isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1 desligado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o interessa. N\u00e3o apontes essa merda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1s-te a passar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele ri-se. Aponta com o dedo para a minha cara. S\u00f3 se passa quem estiver deste lado. Tu est\u00e1s do lado de quem?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e3?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1s do lado de quem? Do meu ou do da tua amiga?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu agora estou aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois est\u00e1s. E eu olha, sabes que mais? Me cago en Dios. Sabias que essa foi a minha tese? Me cago en Dios. Tive uma ova\u00e7\u00e3o de p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De mestrado?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o. A\u00ed \u00e9 que est\u00e1. De PAP. Que \u00e9 muito mais importante, voc\u00eas \u00e9 que n\u00e3o percebem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Come\u00e7ou-me a parecer que n\u00e3o iriamos sair daquela casa. Vais-te vestir, perguntei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vou ainda tomar banho. Curtes ler poesia? Podias ler para mim enquanto eu tomo banho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eh pa, Mauro. Mas tu est\u00e1s numa de ir e seguir viagem ou nem por isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P.P., j\u00e1 te disse que sim, n\u00e3o disse?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Disseste, mas agora est\u00e1s a falar em ler-te poesia, n\u00e3o me parece que te estejas a despachar para irmos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A despachar? Mas tu est\u00e1s agora a gozar comigo? A despachar, foi isso que tu disseste?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto come\u00e7ava a assustar-me. Olhei para a porta da sala e lembrei-me dos c\u00e3es que, embora grandes, eram amistosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas que caralho de viagem \u00e9 que \u00e9 essa? N\u00e3o estamos no mesmo comprimento de onda, como eu pensei, ent\u00e3o. Porque o gajo que falou comigo no carro, falou-me em seguir viagem, essa viagem que se segue, essa viagem interior, e que extravassa pela noite fora, pelo dia fora, que vai por a\u00ed, que n\u00e3o para nunca, que sabe-se l\u00e1 para onde vai. \u00c9 essa viagem ou n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9. \u00c9 essa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, explica-me l\u00e1, s\u00f3 para ver se eu estou a perceber, se n\u00f3s n\u00e3o sabemos onde \u00e9 que a viagem vai parar, est\u00e1s com tanta pressa para chegar aonde?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Senti-me francamente est\u00fapido, mas irritado tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A lado nenhum. Caga nisso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ME CAGO EN DIOS, grunhe com os bra\u00e7os de Ad\u00f3nis para o tecto alto da enorme sala. Depois baixou-os e no mesme lance desceu as cuecas at\u00e9 aos p\u00e9s, fazendo balou\u00e7ar um bel\u00edssimo p\u00e9nis, entoucado por uma pele morena, preso a uma s\u00f3bria camada de p\u00ealos firmes no p\u00fabis e empurrado pelo movimento pendular dos test\u00edculos \u2013 que davam talvez a ilus\u00f3ria impress\u00e3o de estar a ter uma ligeira erec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora \u00e9 devias ter estado com a c\u00e2mara ligada, diz-me. E sai na direc\u00e7\u00e3o do duche, mostrando sem medo o mais ternurento e delicioso rabo de que se podia ter tido o deslumbre de ver e perder de vista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olhei para as estantes, \u00e0 procura de um livro de poesia. Onde \u00e9 que eles estariam? Encontrei um. Fui atr\u00e1s do som da \u00e1gua a cair da pele dele sobre a lou\u00e7a da base de duche. A porta estava aberta. N\u00e3o foi preciso bater.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Encontrei um livro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00ea. L\u00ea um poema. Mas l\u00ea alto para eu ouvir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sentei-me no tampo da sanita. Abri o livro. Olhei para ele a ensaboar-se, a espuma a cavalgar-lhe pela pele luminosa. Voltei ao livro. Disse alto para que me ouvisse,&nbsp;<em>\u00c2nsia de amar Oh \u00e2nsia de viver uma hora s\u00f3 que seja, mas vivida e satisfeita\u2026 e pode-se morrer, porque se morre aben\u00e7oando a vida!<\/em>&nbsp;Ele lava o p\u00e9nis com a m\u00e3o, apertando-o. Sabe que os meus olhos espreitam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Mas essa hora suprema em que se vive quanto possa sonhar-se de ventura, oh vida mentirosa, oh vida impura, esperei-a, esperei-a, e nunca a tive!&nbsp; E quantos como eu a desejaram, e quantos como eu nunca a tiveram, uma hora de amor como a sonharam!<\/em>&nbsp;Ele agacha-se, de c\u00f3coras. Passa as m\u00e3os pelas coxas, abra\u00e7a as pernas. Eu continuo,&nbsp;<em>Em quantos olhos tristes tenho eu lido<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>o desespero dos que n\u00e3o viveram esse sonho de amor incompreendido.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00e1gua cai-lhe na nuca. Mauro? Est\u00e1s bem?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele chora. Fecho a torneira do duche. Deito a toalha sobre as costas dele. Envolvo-o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabes o que \u00e9 que me custa, P.P.? \u00c9 que os que dizem que sabem quem eu sou, os que acham que me conhecem, vivem a vida mentirosa. A vida mentirosa, repara no que diz o poeta. A vida mentirosa, e vivem a vida mentirosa a dizerem aos outros como \u00e9 que devem viver a sua vida. Eu n\u00e3o confio em ningu\u00e9m P.P., eu sei como \u00e9 que me olham. Eu vejo o fingimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ningu\u00e9m te olha de maneira nenhuma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o mintas, tamb\u00e9m tu. Tu n\u00e3o \u00e9s assim. N\u00e3o comeces a ser agora. Eu sei, P.P.. As pessoas ferem com o olhar. E n\u00e3o \u00e9 sem querer. S\u00f3 n\u00e3o ferem mais porque n\u00e3o podem. Achas que eu n\u00e3o sei? Essa tua amiga Margot \u00e9 uma delas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Margot?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, essa. Achas que eu n\u00e3o sinto. Deve estar zangada por achar que eu n\u00e3o a acho mulher o suficiente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 o que tu achas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levanta-se. O p\u00e9nis, agora lavado, fica \u00e0 altura da minha cabe\u00e7a. Disfar\u00e7o. Tento olhar para cima, para ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dessa tua amiga Margot at\u00e9 acho. Se fosse mulher o suficiente n\u00e3o precisava de me olhar assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E diz uma mulher que seja que aches que n\u00e3o te olhe assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o sou mulher.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso eu n\u00e3o sei. Estou aqui com o meu pirilau \u00e0 mostra e n\u00e3o vi o teu. Deixa l\u00e1 ver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diz isto e lan\u00e7a-se a desapertar-me as cal\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1 quieto, p\u00e1. Afasto-o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele continua. Agora mostras. Quero ver se n\u00e3o me est\u00e1s a\u00ed a enganar e se n\u00e3o \u00e9s uma gaja disfar\u00e7ada. Se fores, vou-te arrancar esse mexilh\u00e3o \u00e0 dentada. Vais ver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso eu gostava de ver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ai gostavas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Mauro lan\u00e7a-se a mim como o pulo de um animal em ataque e prende-me de costas contra o ch\u00e3o. Eu esperneio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1s forte? Para quem cheira a leitinho? Ele senta-se nas minhas costas, nu, com os joelhos um para cada lado da minha cabe\u00e7a. Tento virar-me enquanto ele me baixa as cal\u00e7as com as cuecas junto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P\u00e1, est\u00e1 quieto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vamos l\u00e1 ver o que \u00e9 que temos aqui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Consigo voltar-me de frente e aquele p\u00e9nis perfeito est\u00e1 agora praticamente a bater-me na cara. Tento empurra-lo mas ele \u00e9 forte. Sinto a m\u00e3o dele agarrar-me no meu p\u00e9nis e apert\u00e1-lo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Temos vergalho. Deixa l\u00e1 ver se n\u00e3o \u00e9 falso. E aqui, s\u00e3o tomates a s\u00e9rio? Parece que sim. Est\u00e1s livre, passas-te no exame do Mauro ginecologista. Dito isto, solta-me.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tu \u00e9s muita passado, p\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E tu \u00e9s muito homem. Isso \u00e9 que \u00e9 pena. At\u00e9 nos encaixamos bem. E curto ouvir-te a ler poesia. Quase me d\u00e1s tusa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois mais vale contentares-te porque n\u00e3o tou \u00e9 a ver nenhuma mulher que te v\u00e1 aguentar, Mauro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 te disse que nem todas as mulheres s\u00e3o como a tua amiga, Margot. E que nem a acho assim t\u00e3o mulher. Ela \u00e9 que se deve achar mais mulher que as outras. Mas olha que h\u00e1 uma mulher, e essa sim \u00e9 mulher, mulher mesmo, dessas com mexilh\u00e3o no meio das pedras, que \u00e9 c\u00e1 da nossa irmandade. E tu conheces.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aperto o cinto. Quem, pergunto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma meio francesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aguardo que ele me diga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tu sabes quem \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Sophie, arrisco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu disse-te que tu sabias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa sim, foi das tais que p\u00f4de vir c\u00e1 a casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tive um laivo de ci\u00fame. A Sophie ali, com ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela, tu, eu, somos a irmandade da viagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A viagem que n\u00e3o come\u00e7ou, pergunto-lhe, irritado com tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas nada o parece afectar. Diz-me, satisfeito, A viagem que come\u00e7ou. E que nunca vai parar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">IMPAR\u00c1VEL (PARTE TR\u00caS)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, cheguei l\u00e1 a casa e n\u00e3o tinha bateria no telefone e fiquei um bocadinho estressada, porque estava no meio do nada e o Mauro estava ao telefone com uma pessoa dali das redondezas, muito f\u00e3, um rapaz muito f\u00e3 dele que estava muito contente por estar a falar com ele ao telefone. E nisso estiveram uns bons 40 minutos, uma hora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, no entretanto, eu fazia-lhe sinais se ele podia dar-me o contacto de algum amigo meu. Porque eu, entretanto, tinha conseguido recuperar o\u2026 Eu tinha, olha, eu esqueci-me do PIN, eu fiquei sem bateria, depois consegui ligar, mas depois n\u00e3o tinha o PIN, ent\u00e3o tive de ligar, olha, uma confus\u00e3o. Ele enervou-se muito por eu estar stressada com o telefone e come\u00e7ou\u2026 Levantou-se, j\u00e1 estava em tronco nu, grande, forte para caralho, a sala, a porta d\u00e1 diretamente para a rua, para a serra, tem um p\u00e1tio com os c\u00e3es e a serra depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E est\u00e1vamos ali naquela sala, s\u00f3 a porta, n\u00e3o havia nenhuma divis\u00e3o a impedir-me de sair, mas ele disse-me que n\u00e3o merecia o que lhe estava a acontecer, que cheguei a casa e que n\u00e3o tinha feito&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o tinha tratado bem dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso foi muito estranho porque at\u00e9 ali, at\u00e9 entramos na casa dele, est\u00e1vamos num lugar\u2026. de\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1vamos a seduzir e, de repente, ele passou para um papel de&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como se houvesse ali coisas adquiridas e eu tivesse uma postura espec\u00edfica que tivesse de ter, uma gratid\u00e3o para com ele como o rapaz do telefone que tamb\u00e9m queria ser cantor. E disse-lhe que estava\u2026 Que estava nervosa, que n\u00e3o me estava a sentir bem, e que queria ir embora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ele disse-me, N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o vais embora. N\u00e3o vais embora agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E disse-lhe, Mas tu disseste-me qualquer coisa para eu te dizer, e que tu me chamavas um carro para eu voltar para casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele disse-me, N\u00e3o, n\u00e3o, eu n\u00e3o vou fazer isso, porque eu n\u00e3o mere\u00e7o isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o vieste at\u00e9 aqui, para agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu ficar sozinho o resto da noite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, pronto, come\u00e7\u00e1mos a discutir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o sei, pronto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, de repente, eu sinto uma coisa a passar-me, assim, a rentar a cabe\u00e7a e o barulho<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;z\u00e1s!!!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;trumm!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pronto, era a lareira, o vidro da lareira a partir, com o objeto que ele atirou na direc\u00e7\u00e3o da minha cabe\u00e7a, e que me passou \u00e0 razia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu tinha bloqueado o meu telem\u00f3vel,&nbsp; enganei-me 3 vezes no pin.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu, na altura, lembro-me que cheguei at\u00e9 a sair da situa\u00e7\u00e3o e vi-me de fora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E vi-nos de fora, porque ele estava a dizer coisas t\u00e3o clich\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele disse assim, tu est\u00e1s a ver?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele estava completamente descontrolado, parece que os m\u00fasculos dele tinham crescido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele era enorme.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E eu disse, eu vou-me embora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ele disse, vais vais,&nbsp; para o meio da serra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu disse, vou, n\u00e3o quero saber.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vou, vou para o meio da serra, hei-de encontrar algu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o quatro da manh\u00e3, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o faz mal, eu vou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o, a minha porta ningu\u00e9m abre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem abre a porta da minha casa sou eu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E isto, eu estava a tentar avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta e foi t\u00e3o amea\u00e7ador a forma como ele disse isto, que eu percebi imediatamente que se eu tentasse abrir a porta, eu n\u00e3o conseguia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele vinha atr\u00e1s de mim agarrava-me e tapava a boca, ou o que fosse, e eu estava\u2026 N\u00e3o havia vida l\u00e1 fora. S\u00f3 noite e os caes, tr\u00eas ou quatro, ali \u00e0 porta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pronto. Ent\u00e3o eu percebi que eu n\u00e3o podia abrir a porta, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, estava trancada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensei, este gajo est\u00e1 maluco, est\u00e1-se a tornar agressivo. Tive medo, ele \u00e9 forte, a serra \u00e9 muda. Eu vou tomar calmantes e durmo at\u00e9 de manh\u00e3 e at\u00e9 ser poss\u00edvel ir embora daqui, pensei.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ent\u00e3o pedi-lhe, Ah p\u00e1, estou muito ansiosa, arranjas um calmante?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Disse que n\u00e3o me ia dar. Porque podia-me acontecer alguma coisa e ele n\u00e3o se queria responsabilizar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o eu percebi que tinha que estar acordada e estar com ele. Como ele queira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se n\u00e3o podia dormir e dessa forma fugir ao confronto, e n\u00e3o saber o que ia acontecer e n\u00e3o reagir e n\u00e3o provocar\u2026 Ent\u00e3o eu ia ter que estar muito alerta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bom, ent\u00e3o acho que foi rapidamente que percebi que tinha que manipul\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E foi assim que eu estive desde esta madrugada at\u00e9 que \u00e0s quatro da tarde do dia a seguir, ele estava&nbsp; fazer a mala, tinha um concerto em Vigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando ligou a editora dele a dizer, Como \u00e9 que tu n\u00e3o est\u00e1s ainda a sair para Vigo, Mauro?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como \u00e9 poss\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tiveram discuss\u00e3o sobre as expectativas dela para com ele. Ela lembra-se de certeza dessa conversa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8216;Toda uma equipa \u00e0 tua espera!&#8217;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sendo que ele era suposto estar a chegar a Vigo por volta das cinco da tarde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e0s quatro ainda estavam a ter esta conversa. Serra da Freita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu estive muitas horas ali. Doze?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, come\u00e7o a recordar-me, foda-se. Partiu a lareira! N\u00e3o estou a trat\u00e1-lo como ele merece. Ele queria um abra\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois disto, come\u00e7ou a parecer uma crian\u00e7a. De repente, aqueles m\u00fasculos gigantes a crescer passaram para uma express\u00e3o de beb\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o queria estar zangado, dizia ele. N\u00e3o me queria zangar contigo. Vamos fazer as pazes. V\u00e1 l\u00e1. D\u00e1-me um abra\u00e7o. Consegues fazer isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pedinchava a choramingar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acho que na verdade foi a\u00ed s\u00f3 que eu percebi que eu tinha que entrar no jogo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aquilo era tudo demasiado absurdo. Nada fazia sentido. E pronto. Foi assim que eu estive a ouvi-lo a ler poesia. Durante uma espera pelo amanhecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, na verdade\u2026 Al\u00e9m da poesia&#8230; poesia, poesia. Ele fez uma performance para mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um escritor argentino. No quiero el mundo de mierda para nada. Ele fez uma sess\u00e3o privada do trabalho final do curso dele. Foi a PAP, o trabalho final.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele disse-me v\u00e1rias vezes nessa noite<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">que tinha sido\u2026 un\u00e2nima uma ova\u00e7\u00e3o de p\u00e9. E\u2026 Ele estava completamente man\u00edaco a contar como ele estava a dizer aquelas merdas,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">aquelas asneiras todas que n\u00e3o quer o mundo de merda, e que essas pessoas todas se levantaram e disseram ali que ele era o melhor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perguntava-me. Quem \u00e9 melhor que eu? D\u00e1-me um exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu estava sentada no sof\u00e1. Na tal sala com os c\u00e3es \u00e0 porta. E ele estava \u00e0 minha frente. Toda a noite, P.P., a contar-me hist\u00f3rias de\u2026 de centores e\u2026&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E diz-me? Quem? O Tom\u00e1s Wallenstein? D\u00e1-me um exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguma horas depois veio-se para cima de mim. Eu tinha tes\u00e3o,&nbsp; no meio daquele medo todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vestidas as cuecas rosa choque, grandes, como ele gosta, as cuecas que me comprou nessa tarde espec\u00edficamente para estimular uma fantasia espec\u00edfica que tinha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pau n\u00e3o chegou a ficar duro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Est\u00e1vamos quase a sair atrasados para a viagem dele onde ainda me tentaria levar antes de me deixar na auto estrada a implorar-me que fosse com ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 via a sa\u00edda a ficar para tras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foda-se. Eu tenho de ir.&nbsp; Tenho de sair aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O PROSTITUTO PORTUGU\u00caS IMPAR\u00c1VEL (PARTE UM) A surfista aponta com um dos dois finos que traz na m\u00e3o, em copos de pl\u00e1stico, na minha direc\u00e7\u00e3o. Logo recua o gesto para si mesma, cantarola um N\u00e3 n\u00e3 n\u00e3, e estica a boca para me sorrir. 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